Inodora, insípida, incolor
Quando se percebeu que Roberto Requião participaria do pleito saudou-se o fato como a garantia de que haveria substância e "molho" na sucessão, mas deu para perceber, em fatos subsequentes, na montagem das chapas, a nossa terrível falta de quadros. Tanto que a de Gleisi Hoffmann, só concluída depois do apito do juiz, foi uma evidência acumulada de fraquezas, desde a escolha do senador por mero ajuste da aliança com o PcdoB, até a questão da vice atribuída ao PDT e pelo menos melhor resolvida com a designação de Haroldo Ferreira.
A vantagem de Beto Richa só aumentou até aqui, apesar da frustração com a inesperada derrota no PMDB. Se aquela emplaca, não teríamos eleição, pois a aclamação no primeiro turno pareceria inevitável. Sua base aliada, com dimensões de uma Arca de Noé, lhe garante mais tempo na TV e rádio do que a soma dos adversários realmente competitivos.
A opção senatorial da aliança petista - pura acomodação partidária, já que as opções da base com Doutor Rosinha e o advogado Claudio Ribeiro eram bem mais consistentes - tira densidade da chapa e sem cicatrizar as feridas: Ricardo Gomyde só se deu bem numa eleição para deputado federal com apoio da então primeira dama Marlene Pereira e do seu filho Luiz Fernando Pereira, o advogado Pereirinha, e mais a assistência do jornalista Fábio Campana. Histórico de atuação estudantil e de envolvimento com o esporte tanto no de Requião quanto no do lulopetismo no Ministério do Esporte montam o seu currículo.

Vínculo antigo
Na verdade o PT no Paraná paga por seu histórico de vinculação a Requião, fato demonstrado no bloqueio a uma decisão de bancada que fechou questão em favor da PEC antinepotismo, 2007, e depois recuou, deixando sua maior figura, o deputado Tadeu Veneri, abandonado, embora cercado por manifestantes que vaiaram o governador no Teatro Guaíra na frente do seu líder continental, o bufão Hugo Chavez.
Isso enfraquece Gleisi e mesmo com Requião em cena, Beto Richa pode aspirar levar a parada no primeiro turno. Ao menos, em função dos últimos fatos, a eleição tende lembrar a água por inodora, insípida e incolor.
As circunstâncias favoreceram Requião, que tem pelo menos uma vice com alguma expressão ideológica, a Rosane Ferreira, e um postulante ao Senado de peso com Marcelo Almeida, conquanto se pretenda ligá-lo à empresa paterna, uma das maiores beneficiárias no país do pedágio, quando se sabe que ele não faz parte dos quadros diretoriais da empreiteira e acha que o ônus deveria baixar. Ademais Marcelo é um mecenas da arte e da cultura com o seu clube de leitura e suas participações na vida pública são fortes, como no caso da denúncia do poder do cartel dos transportes coletivos em eleição da Câmara Municipal.
Assim nas chapas as de Beto Richa e Requião disparam em musculatura diante da mais anêmica de Gleisi Hoffmann na escolha senatorial.

Reenergizando
A vinda de Lula e Dilma à plenária do PT no Teatro Positivo foi um esforço para reenergizar a militância, insatisfeita com a solução senatorial que teve de engolir. A aura da presidente, com a recuperação episódica, mas expressiva, nas pesquisas, deu ponderável ajuda para que se afaste um dos maiores bastiões de resistência ao lulopetismo que é o Paraná, em que historicamente os seus adversários levam a melhor.
O fato é que nem ocupando prefeituras como as de Londrina, Ponta Grossa e Maringá - que aliás não conseguiu sustentar - o proselitismo prosperou, razão pela qual a aposta em Gustavo Fruet passa a ser um potencial considerável.
A militância aguerrida, voluntária, provocadora, do passado não mais existe e o PT não tem aquela vitalidade juvenil como a da cruzada que quase elegeu Ângelo Vanhoni em Curitiba. Cargos em comissão e a sensação de poder tiraram o fulgor da fauna e hoje a campanha é cara até para contratar paliteiros e distribuidores de panfletos. Batalhão heroico é o das bolsas oficiais, esse um voto garantido, mas constrangedor.

mockup