Essas composições do Paraná, mesmo
nos pleitos indiretos do regime militar, obedeciam ajustes geográficos: candidato metropolitano e vice do interior

Um vice que viceje
Há muito a escolha do vice é fruto de muita reflexão pelos efeitos da composição partidária como se viu na convenção nacional do PMDB e na ratificação de Michel Temer para ocupá-la na chapa de Dilma Rousseff. Também é fator de alta indagação nas composições das duplas estaduais. Hoje a escolha é automática e vota-se na chapa, mas houve um tempo em que o povo escolhia o vice, como se deu numa das mais ideológicas eleições brasileiras, a de 1960 quando tivemos uma encruzilhada entre o liberalismo cosmopolita, o país aberto ao capital estrangeiro, e a resistência nacionalista fincada pelo getulismo. É talvez decorrente daí a escolha automática, pois naquele pleito Jango, vice do general Lott, venceu o aliado de Jânio Quadros, o gênio Milton Campos, UDN.
Em eleição anterior, João Café Filho, como vice na chapa de Getúlio Vargas, 1950, por sua popularidade no nordeste, deu excepcional contribuição, apesar da Liga Eleitoral Católica mover-lhe campanha radical como agnóstico. Aqui, uma das eleições em que a vice foi importantíssima, a de Paulo Pimentel que estava junto a Plínio Franco Ferreira da Costa (que havia tido votação boa como aspirante ao governo em 1960, posto que colocado em terceiro lugar) se sobrepôs ao nome do deputado federal Rafael Rezende, vice de Munhoz da Rocha.
Essas composições do Paraná, mesmo nos pleitos indiretos do regime militar, obedeciam ajustes geográficos: candidato metropolitano e vice do interior como se deu com Roberto Requião e Mário Pereira (Cascavel), Jaime Lerner-Emília Belinati duas vezes, Requião-Pessuti duas vezes ou a inversão dos polos com José Richa-Ari Queiroz. Numa das eleições em colegiado, rompendo o domínio do neysmo, tivemos a dupla Haroldo Leon Perez-Parigot de Souza e com a renúncia o vice, mesmo doente, complementou o mandato. Como tivemos com o retorno de Ney Braga, da região metropolitana, como vice o estadista e jurista José Hosken de Novaes, ex-prefeito de Londrina.
O arranjo geopolítico é por isso mesmo uma das amarras mais fortes dessas composições quando não o peso intelectual do vice no regime militar como se deu com Pedro Aleixo, da vanguarda mineira, vice de Costa e Silva. Deu origem até uma piada melancólica pela impotência civil da época diante da doença e afastamento do presidente: "Nada fiz, nada deixo. Assinado Pedro Aleixo".
Sacrifícios
Tanto Requião quanto Beto Richa e mais Gleisi Hoffmann têm dificuldades em montar a chapa justamente na escolha do vice, o que deve ser feito no máximo até amanhã. Daí o esforço que foi feito para seduzir Ratinho Júnior para a chapa do PSDB. Ratinho, que tem se revelado, um puxador de votos, razão pela qual a direção do seu partido, o PSC, gostaria de vê-lo disputando a Câmara Federal quando seu interesse seria o de transferir todo esse proselitismo para montar uma bancada estadual com musculatura.
Depender de um puxador de votos como Ratinho, ainda que aliado recente como componente do governo, é mostra de fragilidade e de busca de uma compensação pela perda daquilo que era tido como fácil na sonhada e frustrada aliança com o PMDB. Evidente que tal apoio, em termos eleitorais, serviria de consolo, mas o peso do sacrifício ao PSC, menos por suas ambições nacionais do que pelas de caráter local, se tornaria difícil dimensionar. Nem todo sacrifício é portanto negociável.
A força dos nomes se dissipa com o tempo. Pessuti, por exemplo, não foi testado. Já Flávio Arns ganhou expressão por aquela sua vitória surpreendente pelo PT para o Senado e isso o credenciou para figurar como o vice de Beto Richa. É atualmente uma reserva expressiva ainda por sua atuação social e a que desempenhou em negociações com o professorado na área da educação.
Enfim no mínimo o vice precisa ter viço para vicejar.

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