Um teste agudo
Vários prefeitos da capital têm sido testados na área do transporte público e agora chegou a vez do Gustavo Fruet com a insólita greve dos cobradores e a abertura das catracas para o passe livre. O município, por se tratar de verba pública perdida, promete ir ao Judiciário para que o sindicato faça a reposição da grana. E está na hora de uma ação dura nessa área até aqui um tanto quanto comprometida pela coexistência mais do que pacífica do setor interessado, o cartel, e o poder concedente, relação hoje sob atritos desde que o grupo que estava no governo foi derrotado e afastado.

Tivemos casos históricos de conflitos na área como em 1955-56 com Ney Braga e logo depois um locaute generalizado com Iberê de Mattos. Ney botou caminhões do Exército nas ruas para transportar o povão e Iberê conseguiu vencer vários obstáculos: um decreto de Lupion que passava o sistema dos coletivos ao DSTC, Departamento do Serviço de Transportes Coletivos do DER (sistema interestadual e intermunicipal) que foi derrubado no Judiciário e a apreensão espetacular de toda a frota escondida em São José dos Pinhais, obra do procurador da cidade, Edgar Távora, ex-vereador de Londrina.

Houve exercício de demagogia com a tal criação da Frota do Povo de Requião, operação bolivariana limitada a 80 ônibus e que não deu contribuição alguma ao histórico do serviço como houve também a tentativa de introdução de um novo modal, elétrico, troleibus de dimensões acanhadas para operar nos eixos que reclamam alta capacidade de carga, isso na gestão Maurício Fruet, que se revelou inviável tecnicamente.

A cidade está à espera do estadista para agir e que não fique contemporizando quando há todas as condições, políticas especialmente, para um novo ciclo em que a capital não fique refém de um sistema como se dá com o ICI, Instituto Curitiba de Informática, até aqui com respostas frágeis da autoridade.

Quem leva
Para cobrar do Sindimoc a tarifa que deixou de ser paga, a prefeitura acabará enfrentando na mesma demanda o sindicato patronal como prejudicado. Precisa de retaguarda jurídica (a do cartel conta com dois dos maiores especialistas em Direito Público do Paraná que cobrem também as concessionárias do pedágio). Sindicalistas, como sempre confiando que essa questão acaba entrando no rol da negociação, não acreditam em sanção como de resto a justiça volta e meia os ameaça com multas que acaba não cobrando e dá o mau exemplo.

Os laços pactuais, estabelecidos ao longo do tempo, são estarrecedores: houve um tempo em que o usuário pagava as dezenas de milhares de cestas básicas de motoristas e cobradores como existe ainda em nome de um fundo assistencial a concessão de 3% dos dispêndios com pessoal ao Sindimoc. O Ministério Público ameaçou ir em cima desse absurdo, mas nada foi feito.

Vamos ver - continuando ou não a greve - se temos ou não um prefeito que se desliga dessas condicionantes históricas e age como estadista.

Nossas fragilidades
O fato de o vereador João Claudio Derosso ter se mantido na hierarquia do poder municipal de Curitiba por longos quinze anos mostra nossa fragilidade e a da fauna política. Foi derrubado com a revelação de escândalo com publicidade em dupla com a ex-esposa. Como é que pode o poder político da capital ficar sob tal domínio e tanto tempo? Ora a relação entre a cidade e o seu sistema de transporte coletivo já tem mais de meio século e só agora é que surgiram os primeiros atritos, pois antes seria impensável uma CPI na Câmara, já que a maioria da casa estava comprometida na ação do grupo "Pró-Cidade" e muito menos haveria auditagens como as da Urbs e do Tribunal de Contas.

Historicamente nunca houve um momento como o de agora para que se possa afirmar que a cidade tem um prefeito em condições de enfrentar velhas e rijas contradições que a perturbam.

mockup