LUIZ GERALDO MAZZA
Conflito interno
O governo estadual deve grana pra Copel, mais de R$ 1 bi, mas na condição majoritária em ações com direito a voto, já que mais de 60% do seu capital social se acham em mãos privadas, pode fazer o que fez agora com o aumento da tarifa sem levar em conta quaisquer razões da empresa. Esse direito majestático, imperial, é uma das deformações da relação entre governo e estatais. A reciprocidade é visível na contribuição política: no período militar e até depois dele a Copel foi arma político-eleitoral do governo, inclusive na montagem dos tais planos de campanha, às vezes valendo-se até do emblema indireto da empresa como se deu em 1982 quando se colocou um quadro com a pergunta "Saul Raiz ou um salto no escuro?" e havia uma situação em que um usuário se achava embaixo do chuveiro e de repente a luz apagava. Saul, muito mais qualificado que José Richa, perdeu a disputa pela "herança" militar, nada mais. Por sinal que Richa, por suas origens neystas, quando prefeito de Londrina, teve apoio dos executivos paranaenses no BNH, Caixa Econômica, etc, todos de raiz semelhante.
Eletrificação rural
Eleito Richa qual o seu plano mais ambicioso: eletrificação rural e como era indispensável flexibilizar suas normas técnicas para baixar custos, o setor político-ideológico fez uma campanha por postes de madeira tratada visando dobrar os rigores da hierarquia estratégica. Houve resistência funcional e pelo menos seis das expressões da empresa foram demitidas e tiveram que ir ao Judiciário para retornar aos quadros.
Os fornecedores do posteamento, que não queriam perder a escala dos negócios, acabaram baixando os preços e a batalha "ideológica" foi encerrada. Se no comando da Copel estivesse um Parigot de Souza isso não teria ocorrido. Mas de lá para cá a empresa passou a prestar-se como rotina aos intentos do acionista majoritário ao ponto de, sob Requião, participar de um consórcio em licitação de vias pedagiadas. Como se vê, uma relação viciada, agora ratificada nessa opereta bufa em que ficamos sem saber o que a Copel pensa, se é que lhe dão esse direito.
Estamos vendo, em escala nacional, o estrago que esse tipo de relação provoca no caso da Petrobras como se não bastassem as jogadas reveladas na Lava Jato, pois na ânsia de evitar o efeito inflacionário do aumento dos combustíveis a maior empresa brasileira em pouco tempo perdeu metade do seu patrimônio e suas ações lembram a lesma que derrete ao sal. É evidente que a relação na União é mais justificável, embora mais cedo ou mais tarde a barragem das tarifas deprimidas terá que ser rompida.
A Copel tinha tudo para ser leiloada no governo Lerner, já que a lei estadual de iniciativa popular que o impedia foi derrubada no Legislativo. O ataque às torres geminadas nos Esteites, acoplado ao apagão energético interno, é que afastou competidores e devemos ao terrorismo a salvação da joia da corôa, embora os nossos basistas, à cada campanha eleitoral, sugiram que eles, sim, com suas faixas hostis e com as palavras de ordem, é que a salvaram da privatização. Cada um com seu sonho. O pesadelo fica para a maioria.
O técnico e o político
Nesse caso mais recente do Paraná como no da Petrobras o fator político se sobrepõe ao técnico e essa nem sempre é a melhor opção, razão pela qual há toda uma questão ética e doutrinal do mundo corporativo a ser levada em conta.
Quando o governo, no empenho de cooptação, leva quadros sindicais e também associativos, segmentos de profissionais liberais, para dirigir a estatal quer a reciprocidade de tratamento e que se estenda ao grupo representado. Daí a necessidade de criar a mente estamental nessas empresas para que haja sempre focos de resistência em defesa dos chamados interesses permanentes, o que deve estar traduzido num corpo de doutrina e normas de ação. Um pouquinho de tecnocracia para conter transbordamentos políticos é um santo remédio.





