Não haverá, como tem infelizmente ocorrido nas últimas eleições, debates sobre o Paraná de hoje e amanhã, tudo entregue às firulas dos marqueteiros e como quanto mais marketing menos ideias, ausência de pensamento e reflexão.

Vai faltar molho
No cardápio eleitoral vai faltar molho se Requião ficar de fora: menos verbo e menos denúncia e especialmente ausência de talento e ironia, tão necessários na competição política. Em primeiro lugar sua participação levaria ao segundo turno e só por isso já seria relevante: lousa apagada teríamos algo semelhante ao primeiro dia da criação, oportunidade para que o entrevero de ideias tivesse a máxima amplitude.
Seriam respeitáveis as razões dos seus outrora legionários hoje abraçando a reeleição de Beto Richa, além das alegadas pressões dos municípios e o receio de perderem espaços que ameaçam estreitar? Ou seria uma generalizada estafa de repetição de rituais e de um comando despótico que serve mais a ele próprio do que ao partido?
A estafa é um motivo, afinal o fato de o senador ter sido três vezes governo, uma prefeito da capital e várias como senador é currículo mais do que suficiente para uma avaliação de convívio e de reciprocidade. Todos os que se arregimentam com Richa tiveram ligação estreita com Requião: Caíto Quintana, ora cogitado para ser o vice da chapa, foi seu Chefe da Casa Civil e premiou o Baiano da Foice, com mais de 90 anos de idade, com um cargo no Palácio, um dos elementos chave da encenação do Ferreirinha, o maior estelionato eleitoral de nossa história. O Luiz Claudio Romanelli, outro atleta de aprontadas, foi quem mais massificou a certidão da aposentadoria de José Richa para tirá-lo do segundo turno naquela eleição.

Shakespeare, não
Não pega bem para Requião tentar fazer o papel do traído e do abandonado como nos arquétipos shakespeareanos. Pode, no entanto, fazer uso do verbo forte e candente contra a corrupção desde que assentada em fatos como no da suposta presença do homem da mala a que já se referiu. Mas os bons operadores, como se vê, estão do outro lado e podem ser o antígeno em jogadas fora dos códigos mas que fazem parte do arsenal do grupo nas ações pouco ortodoxas.
Julgamento moral, que poderia ser uma arma forte contra os adesistas, não funciona porque o exercício da política é essencialmente aético quando não marcado por um pragmatismo sórdido, visível nessa contingência que fez do PMDB a expressão mais escarrada do fisiologismo como pêndulo entre PT e PSDB conforme as vantagens a auferir. Em passado distante tivemos, desde o MDB, a dicotomia entre fisiologistas e autênticos, hoje inexistente porque a maioria adotou a filosofia de faturar vantagens.

Primeiro turno
Se derrubada a tese da candidatura própria, como se deu naturalmente em nível nacional, e com os adesistas afirmando apoio à reeleição de Dilma Rousseff, por mais que se ponha isso em dúvida, não haverá como partir para a ignorância e ao radicalismo de pleitear intervenção do Diretório Nacional. Reduz-se o espaço operacional de Requião (a essa altura com Pessuti, minoritário, quem sabe já ao lado da maioria) e haverá tudo para uma vitória de Beto no primeiro turno, restando aos derrotados dar apoio a Gleisi, como ela espera para tentar reequilibrar a disputa.
Não haverá, como tem infelizmente ocorrido nas últimas eleições, debates sobre o Paraná de hoje e amanhã, tudo entregue às firulas dos marqueteiros e como quanto mais marketing menos ideias, ausência de pensamento e reflexão.
Gleisi Hoffmann tem dito que fará uma campanha de propostas, mas perderá bom tempo para provar que não brecou os empréstimos do Paraná, pois como ensinava Goebbels a mentira repetida se transfigura em verdade.
Pequena chance de fermentação de ideias pode estar nos debates aos quais Beto Richa poderá renunciar como suprimiu na sua vitória o andamento das pesquisas eleitorais, astúcia que funcionou.

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