LUIZ GERALDO MAZZA
Apenas encenação
Só falta o governo estadual atrasar o pagamento dos vencimentos dos barnabés estaduais para revelar o tamanho da crise financeira. Todos os esforços estão sendo feitos para que isso não aconteça. Tanto que demandas como essa dos professores atrás de atrasados da ordem de R$ 100 milhões relativos a promoções e progressões se repetem em outras áreas do funcionalismo, inclusive com o não pagamento sistemático de promoções já formalizadas e que pelo jeito só serão consumadas com processo judicial.
O quadro é assustador em termos de mesquinharias e tanto que a força tarefa (quatro delegados, superintendentes, investigadores) deslocada à Fazenda Rio Grande para desobstruir uma avalanche de 5 mil inquéritos parados não está recebendo a diária de R$ 57 por não haver dinheiro disponível com o setor responsável, afirmando que não há previsão para o pagamento.
A mobilidade do governo, no entanto, tenta vender a aparência de normalidade e, como sempre, atribuindo as dificuldades a bloqueios da União a seus empréstimos como se não fossem carimbados e para fins específicos como é o caso do Proinvest, via Banco do Brasil, de R$ 817 milhões e aplicável apenas a obras de infraestrutura. E a irritação é tão dramatizada que a Procuradoria Geral quer o enquadramento do ministro da Fazenda, Guido Mantega, sob ameaça de multas diárias e pesadíssimas.
O caso pitoresco do cineasta que tinha uma grana para receber e ameaçou permanecer na Secretaria da Fazenda e que desistiu da pressão por haver da parte do governo uma promessa de parcelamento da dívida é indicativo de que outros credores poderão partir para a dramatização e encurralar a autoridade.
Acordos não cumpridos
Todas as questões do pacote reivindicatório dos professores em grande parte decorrem da absoluta falta de recursos para honrá-los e uma das causas da última greve foi exatamente a verificação de que o governo não cumpria de forma integral os questionamentos. Como é, por exemplo, que nas condições atuais, poderia a autoridade assumir qualquer compromisso no sistema de saúde improvisado e que não funciona? No entanto, estava lá outra vez em destaque como cláusula de negociação.
Essas amarras todas confirmam a crise que se reproduz no medo com que fornecedores revelam em fechar negócios até com autarquias e que normalmente possuem caixa com "verbas industriais". Não há fidelidade nessa relação como se viu nos R$ 1,1 bilhão devidos a prestadores de serviços.
O negócio, portanto, é empurrar tudo com a barriga, ganhar tempo e esperar que tudo se autometabolize ou ainda a drenagem dos empréstimos a qualquer momento permita sair do sufoco insuportável e irresponsável.
Tratoraço
Enquanto fica visível a crise, um burocrata do DER anuncia que o governo vai dar mais dinheiro para as pedagiadas, evitando fugir de indenizações bilionárias e depois fracamente desmentido pelo governador que continua mantendo sob regime de "caixa preta" todos os acertos com as consorciadas. E a estrutura pública foi removida para esse tipo de atuação, segundo informes de quadros do antigo Departamento de Estradas de Rodagem, com o comando das operações aos cuidados de consultorias específicas de supostos especialistas da área privada. Quer dizer, substituíram uma área de excelência, como aliás fizeram com tudo: o planejamento e as suas rotinas de estudos e, especialmente, o modelo de gestão financeira que deixou de existir já numa das gestões de Lerner e que se agravou com os sucessores Roberto Requião e Beto Richa e esse desmonte responde pelo caos atual com o governo imobilizado assumindo novos empréstimos para sair do sufoco e revelando ausência de programação mínima nos compromissos. É que além dos já tradicionais do saneamento do Banestado, mais empréstimos internacionais, capitalização do BRDE, há ainda as consequências dos protocolos para investimentos em que o Estado se permite a dilação do ICMS e com ela perdendo, transitoriamente, arrecadação.





