O olhar no passado
Na compulsão pela revisão histórica transforma-se a mudança de nomes de ruas e prédios de agentes da ditadura em prioridade angustiante, sufocante, mas não há preocupação com o passado imediato como as revelações desta FOLHA na reportagem-documentário de domingo sobre escândalos operados por Alberto Youssef e que envolvem figuras do primeiro time da política paranaense brecados no Ministério Público e no Judiciário. É aí que se percebe o poder do que chamo de sociedade cartorial, capaz de sufocar o andamento de processos como os da Copel-Olvepar, saque de R$ 250 milhões a custos atualizados, e da operação CC5-Banestado, o maior de todos os escândalos brasileiros que desviou nada menos de US$ 20 bilhões em lavagem de dinheiro na gestão Lerner.
Mal resolvemos os problemas contemporâneos, de grossa corrupção e candente exigência da recomposição da ordem jurídica acintosamente agredida e fazemos do passado distante, sem um julgamento preciso de cada personagem na exata contingência em que atuou, numa agressividade iconoclástica, que lembra de certa forma a "revolução cultural chinesa" e o império dos Black-Blocs. Os chunchos da Petrobras (por sinal que sustentada pelo regime militar e no gesto marcante de Geisel admitindo, controverso, os contratos de risco como um fato novo na vida da empresa) não são relevantes já que quem promove as denúncias são prováveis agentes do imperialismo que querem derrubar o bastião da Pátria.
E como ficam os poderes comprometidos em todos esses episódios? O silêncio tem o peso de uma anistia, mais ampla e irrestrita, do que a estabelecida para os lados conflagrados dos conflitos brasileiros.

De novo
Pela disposição e energia do professorado e a pobreza franciscana do governo quebrado de Beto Richa um conflito desigual em ano eleitoral: a massa se reúne na frente do Palácio em greve e o gestor, perplexo, com dificuldades para atender compromissos primários como o das promoções até hoje não pagas e outras promessas em favor de policiais e de guardas de presídio. Não há como pagar a hora atividade (que implica em 33%) e as promoções retidas e muito menos dar mais um reajuste de 10%.
O movimento ativará outros setores - e alguns deles combativos como o pessoal da saúde com sua greve de três semanas - e no primeiro dia de maio não se deve esquecer do aumento geral de todos os trabalhadores públicos. O pior é que continuaremos a ouvir o cantochão de que a crise não é responsabilidade do governo estadual, mas da teimosia da União em brecar nossos empréstimos.
Caminhamos celeremente para a anomia: mal podemos sair de casa por absoluta falta de segurança e a caudal reivindicatória nas ruas é o sinal de que o pior ainda está por vir.

Vietnã
Como enredo de tragédia grega, afinal todos sabem que ela será inevitável, a safra de sangue das estradas paranaenses: 35 mortos e 415 feridos. E tudo se repete e sempre com a precedência das advertências como as que rondam as curvas da Santa e do Tombo.

Insepulto
Como cadáver insepulto, o deputado André Vargas é encarado em seu destino de renunciar ao mandato. Logo ele, fidelíssimo, que como secretário do partido na área de comunicação, queria o "controle social" da mídia e defendia, um a um, todos os incursos no mensalão como mártires da boa causa, que estaria, a seu ver, transformando o Brasil. O PT quer arquivá-lo ao esquecimento como fez com a bandeira da ética nos tempos em que estava um tanto quanto distante do poder.

Folclore
Se Beto Richa confessar, na disputa com os professores, que o Estado quebrou será ao menos beneficiado pelo brocardo de que quem diz a verdade não merece castigo. Para descompensar perderá o seu único argumento eleitoral: o de que Gleisi Hoffmann é que represou nossos empréstimos.

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