Deturpações revisoras
Pelo que se lê e se ouve, relativamente a 1964, dá a impressão de que a maioria defendia o governo e era contra o golpe. Certa vez ponderei junto a outros colegas como eu atingidos pelo Ato Institucional, e que também responderam processos na auditoria militar, que, se fôssemos tantos quantos os que por aí aparecem pleiteando indenizações e narrando padecimentos, certamente seríamos maioria, e só a incompetência justificaria a derrota na área popular. Ao revés, estávamos isolados e éramos alvo de discriminação, até porque não nos davam empregos, contaminados que éramos pelo carimbo revolucionário. Só em 1970 o João Milanez desta FOLHA e Francisco Cunha Pereira da TV Paranaense (Canal 12) me devolveram ao mercado de trabalho.
Operadores do golpe foram militares, mas respaldados por maioria civil, tanto que a eleição de Castelo Branco foi empalmada por supostos oposicionistas, o que se entende como a prática do possível, por Juscelino e Ulysses Guimarães dentre outros. O calendário eleitoral foi mantido em 1965 nos pleitos estaduais e aqui tivemos uma disputa polarizada entre Paulo Pimentel, da aliança neysta, e Bento Munhoz da Rocha Neto pela oposição. Como desde 1962, graças aliás a João Goulart, a campanha se dava com acesso gratuito ao rádio e à televisão, tivemos o desdobramento normal da disputa, inclusive com saques ideológicos como o do "Zé Ninguém" pelos oposicionistas, um esforço para colocar a luta de classes na parada, bem respondida pela situação buscando identificar Pimentel, por sua origem do interior, com o chapéu de palha, metáfora melhor entendida e inspiração do Aníbal Khury.

Um teste
A eleição foi um teste para o regime, uma vez que "pombos" e "falcões" permeavam os quadros militares e civis e a vitória oposicionista no Rio de Janeiro com o embaixador Negrão de Lima e em Minas Gerais com Israel Pinheiro
gerou um embate interno com a disposição de alguns em não permitir a posse desses dois governadores. Até nesse evento se percebe a preocupação com a judicialização dos procedimentos, o que sofreria restrições com o aparato repressivo, pós 1968, os porões do sistema, com o surgimento da resistência armada especialmente e com a audácia dos sequestros de embaixadores e troca posterior de prisioneiros.
Esse teste foi suficiente, embora a pequena vitória oposicionista, para reforçar os que pediam maior depuração do quadro político e que se agrava com a recusa do parlamento ao pedido do governo do processamento exemplar do deputado Marcio Moreira Alves por causa de um discurso provocativo (o que apenas revelava a absoluta falta de humor dos militares) em que sugeria que as moçoilas nas festas dos espadins se recusassem a bailar com os milicos. Parece incrível que um exercício de ironia, de gosto discutível, embora contundente no antimilitarismo fosse capaz de operar como, dizia Mao-Tse-Tung, a faísca na pradaria. É a hemorroida se impondo ao raciocínio. A pregação de Marcito se voltava para as celebrações do 7 de setembro, cinco dias antes.

Pombos, falcões
Ney Braga, alinhado com os "pombos", era visadíssimo pelos "falcões" e até a Auditoria Militar, em que éramos processados, se contaminava, tanto que havia, da parte do Ministério Público, a intenção de atingi-lo. Decorrências dessas ligações dentro do sistema, Ney foi beneficiário das gestões de Castelo Branco e de Ernesto Geisel. Tentando nos ajudar como testemunha, o jornalista Candido Gomes Chagas levou uma cópia de um cheque assinado por Suplicy de Lacerda em favor do jornal "Ultima Hora" por reportagens pelos incêndios florestais. No momento da acusação, Lacerda era ministro da Educação e autorizou o pagamento como membro de uma comissão e à época em que ocupava a Reitoria da Universidade. Essa relação com o jornal de Wainer, o único que defendia Jango, foi usada pelo depoente para mostrar as relações contraditórias de Ney Braga como financiador de "UH".

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