"Há subjetividade nas narrativas de revisão da história em relação às Diretas e ao golpe de 1964"

Ainda as barricadas
A memória trai: a subjetividade de opções pessoais turva o raciocínio. Aqui no Paraná o PMDB busca sugerir que o leilão da Copel foi impedido por seus diligentes militantes quando o que o tornou impossível foram simultaneamente o apagão do sistema elétrico no Brasil e o ataque às torres gêmeas nos Esteites. Vá convencer um dos alegres marchadores da causa de que não foi a resistência mas a ocorrência de fatos relevantes que impediu o negócio. Até porque Lerner tinha abafado todos os focos de resistência no Legislativo e estava livre para vender a joia da coroa, o principal ativo do Estado.
Também no processo de revisão da história que se dá em relação às Diretas e ao golpe de 1964 as narrativas seguem essa subjetividade: dá a impressão que ganhamos a batalha parlamentar da emenda Dante de Oliveira quando fomos bem derrotados e saímos frustrados, embora compensados pela arregimentação e o caldo de cultura que nos beneficiaria na ida ao Colégio Eleitoral com Tancredo Neves. E aí também esquecemos que ganhamos graças à oposição ao nome de Maluf que havia derrotado o candidato militar Mario Andreazza. Foi aí que nasceu o PFL como dissidência sob comando, dentre outros, de Antonio Carlos Magalhães.
Com referência à Redentora, que faz seu cinquentenário amanhã, também os analistas esquecem que a esquerda, fiel ao presidente, apostou nas barricadas e tanto que fez do comício das reformas na Central do Brasil o desafio aos resistentes: isto é, convocou à batalha das ruas e aí o outro lado, valendo-se da exploração religiosa, anticomunista, fez as marchas com Deus, pela Família e a Liberdade, orquestrada por pastores ianques.

O preâmbulo
No comício das reformas, é claro, foi impossível impedir que os mais afoitos pregassem tanto a agrária quanto a urbana na lei ou na marra, embora o equilíbrio pessoal de João Goulart, cujo dispositivo militar era pior do que a defesa do time do coxa. Passados alguns anos, nos reunimos com o compositor Zé Keti, que cantarolou uma charge às marchadeiras: "Você marchou pela democracia, agora chia, agora chia!". E de fato muitas das legionárias daquela proeza até pelo desgaste do regime e da situação econômica fizeram a revisão.
O fato é que aquelas arregimentações operaram como o sinal para a intervenção militar, velha tradição da praça, agora num clima psicossocial de Guerra Fria, o que justificava em cima do golpe a presença da armada americana na costa brasileira.
A fermentação de tudo isso começa nos campos da Itália na 2ª Guerra Mundial, onde figuravam entre outros Castelo Branco e o general Cordeiro de Farias. O oficial de ligação com os expedicionários brasileiros era Vernon Walters, que depois ocuparia o comando diplomático-militar da CIA. Consta que ele teria vindo a Curitiba na 5ª Região Militar, então ocupada pelo general Cordeiro de Farias, para acertar uma das consequências dos acordos de Yalta e Potsdam com a nova geografia mundial - a montagem da Escola Superior de Guerra no Brasil como instrumento ideológico da "guerra permanente", motor da sublevação.
Se os americanos não hesitaram em invadir a ilha de Granada, ainda mais depois do caso cubano, que tinha a expressão de um acidente no lago do Passeio Público ou do Igapó, iriam abandonar seus interesses estratégicos num país de dimensões continentais como o Brasil? Vieram da Itália e a primeira providência foi derrubar Getúlio Vargas, restabelecer a democracia com a Carta de 1946, a eleição do generalíssimo Dutra, o episódio vergonhoso da cassação dos mandatos comunistas combatido por Munhoz da Rocha, o contratempo da vitória de Vargas em 1950 até a sua morte que garantiria a sustentação da dupla PSD-PTB e a ascensão de Juscelino. O havido em 1955 é um "respiro", recuo estratégico para a intervenção nove anos depois. E quem é que aparece por aqui para convencer Ney Braga quanto ao golpe: justamente, já na reserva, o general histórico, homem da Coluna Prestes, Cordeiro de Farias, resíduo do tenentismo em ação.

mockup