Retorno à cruz
Queixam-se, e com boa dose de razão, os críticos de costumes que a principal data da cristandade, o Natal, está por demais comercializada: mesmo com o mimetismo de São Nicolau ou Santa Claus na figura de Papai Noel mede-se a festa pelos resultados do faturamento em hiper e supermercados e nos shoppings. Se é verdade que o próprio Natal deriva de uma celebração mitraica e, portanto, pagã com o "Natalis Invictis Solis" e que tem a maior consequência num menino Jesus festejado como um pequeno faraó e presenteado pelos reis magos, todos os esforços para reverter o consumismo, na verdade expressão do mais rígido materialismo, resultam inúteis.
Empenhos para recristianizar o Natal até agora bateram na trave e seria ingênuo esperar que da Semana Santa e do sacrifício de Jesus se obtivesse algo nessa direção. Ao revés as sugestões que ocorrem são justamente no sentido de espetacularizar a celebração como respaldo turístico mormente nas cidades históricas e de tradição romeira.

Uma páscoa turística
Por sinal que nesse particular Curitiba tem um potencial inexplorado de celebrações como a dos ucranianos, tanto os católicos quanto ortodoxos, em datas diferenciadas, com seus rituais e a mostra das peçânkas e kraxankas, aquela arte milenar, bizantina, da pintura dos ovos e benção dos alimentos.
Como no Natal é possível dramatizar o evento que aqui é muito bem representado nas celebrações do HSBC, nas teatralizações e na Galeria de Luz e em exposições iconográficas de arte religiosa também todo esse tipo de acervo pode ser mobilizado na Semana Santa, enriquecido pela variedade litúrgica e a especificidade das procissões. Há muito as encenações da Paixão de Cristo que emocionavam os circos do passado não ocorrem e nem os nossos grupos cênicos delas se ocupam como faziam no passado Roberto Menghini e João da Glória. A despeito de incorrerem por seus refinamentos cênicos em situações folclóricas compunham o clima e até contribuíam para amenizar o tom dramático e piegas daquilo que tanto comovia o público.
Nessa perspectiva artística seria possível mostra museológica de nossa arte religiosa e aí teríamos, por exemplo, exposições das telas de Guido Viaro e dos seus discípulos como Luis Carlos Andrade Lima, filmes, vídeos, fotos.
Não deixa de ser irônica a pretensão de recristianizar a natalidade e a paixão por aquele detalhe de origem: a primeira adveio de uma raiz claramente pagã e que viria dar origem a outra arte descendente - a dos presépios. Um esforço de síntese geográfica para reconstruir a glória na estrebaria enunciada pela estrela-guia e objeto da migração dos reis magos.

Folclore barroco
Contrapondo-se ao tom fechado, circunspecto, das celebrações antigas feitas de silêncio e cortinas escuras (o temor paranoico de engolir um mosquito e com isso desrespeitar o jejum da comunhão) há um folclore riquíssimo em torno das dramatizações. Em Paranaguá, no Cine Santa Helena, Roberto Menghini, no papel de Jesus, é preparado para o ato final e está na cruz quando lhe lançam por trás do pano uma bacia de água fria para acentuar o sofrimento, o suor do personagem. O choque da água o leva a xingar "um filho da mãe" dissimulado com o rosto pendendo para o lado como se próxima a hora de expirar, enquanto a cortina se abria lentamente, o gestual dissimulando a heresia sutilmente.
Em Olinda, Pernambuco, o barbeiro "Zé das Tranças" faz o Pôncio Pilatos e quando se declara tal a multidão, que o conhece muito bem, em ordem unida, repete o apelido. Aí os ânimos esquentam e Jesus, que era o presidente da Câmara Municipal, pede, entre vaias, que levem a sério a teatralização e aceitem o Zé das Tranças como Pilatos, aquele que lavou as mãos para não julgar, isso é deu uma de tucano e ficou no muro.
Outras há como a da encenação colegial do Santa Maria em que Tatinho Taborda não tendo mais o que dizer contra Judas que se esquiva para o suicídio chama-o surpreendentemente de "contrabandista" entre as dezenas de ataques ao dissidente e até Jesus, encenado por Fernando Fontana, cai na risada.

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