O uivo permanente
Com o império das redes sociais se pode esperar de tudo: passeatas como as de junho do ano passado ou fracassos como recente convocação de protesto contra a Copa que tinha mais de mil acessos e, todavia, levou apenas 50 jovens para o berreiro das ruas em Curitiba. O fato é que o referencial padrão Fifa para um país que não dá a menor atenção à saúde, à educação e à segurança, obrigações imperiosas de Estado, vai ser sempre uma evidência de desrespeito a prioridades.
Mesmo considerando o poder anestesiante do futebol, e em especial da seleção brasileira, é perfeitamente possível captar o fermento psicossocial que tomará conta do País nas expressões de inconformismo. Se a situação econômica persistir em queda haverá caldo de cultura altamente inflamável para situações fora de controle, ainda mais com o liberticídio da moda com a mídia e o mundo acadêmico cultuando uma doutrina de extrema tolerância com a violência, como se ela fosse componente civilizatória, indispensável à democracia.
O governo federal não é embotado e mesmo preocupado com a reeleição, deu o toque de reunir forças, até militares, como admite a presidente Dilma, para refrear e dissuadir os tumultos. O futebol já foi o ópio do povo, como em passado distante se o atribuía à religião, contudo deu para perceber durante a Copa das Confederações que pode se transformar em fator de agito social e tentativa até de impedir a competição. À época, a economia não estava tão crítica quanto agora. Por sinal que o que nos tem salvado é a demografia, isso é a baixa taxa de natalidade, e o nível de emprego que com ela se associa para evitar explosões mais agudas.

O impeachment
Agora, nas redes sociais, já há justamente em cima da Copa do Mundo e seus gastos fantasiosos um abaixo assinado com milhares de signatários pregando o impeachment da presidente Dilma por causa do evento. Esse, um dos riscos da histeria em andamento: a busca de saídas ditadas pela intolerância e não compatíveis com as regras do jogo da democracia. Sabidamente o referencial dos gastos com a Copa num país com carências brutais como o nosso, isso sem falar na questão das prioridades, é arma sensível na mão dos demagogos e daqueles que sabem manobrar multidões e não apenas os "black blocs".
A atmosfera é a pior possível e como estamos coincidentemente com um processo eleitoral de profunda capilaridade por alcançar todo o país, é hora de convocar bombeiros, quando o clima é mais apropriado aos incendiários.
Essa palavra pode vir de várias fontes, aí sim da academia e da mídia, mas no sentido de evitar o pior. Porque se os oportunistas se valem disso para propor o afastamento da presidente, imagine-se o que está por vir do lado da insânia.
Não basta, pois, mostrar o acumulado em ganhos democráticos pela circunstância de vivermos num regime aberto como em nenhum momento de nossa história e a soma de riscos que estamos assumindo com a passividade a todo o tipo de absurdo, como o de legitimar a ação de justiceiros em várias ruas do país, onde pequenos delinquentes são amarrados em postes na pretensão de a turba substituir a instituição policial.

Pressão popular
Instituições como tribunais de contas e organismos de controle se mostram ativos como nunca traduzindo a reação no setor público à indignação dos que cobram seriedade. Aqui, o TC estadual, por mais de uma vez se pronunciou, o mesmo ocorrendo com o da União, que revelou preocupação com os dispêndios e o andamento das obras da Arena da Baixada. Ainda em recente desocupação de um condomínio social em São Paulo, entre as faixas dos despejados havia uma ameaçadora afirmando que não haveria Copa do Mundo. Quer dizer, o evento se transformou na referência de nossos desníveis e desigualdades, que certamente não serão resolvidos com eventual revolta e supressão da Copa, mas que bota em destaque a resistência às exclusões genéricas que padecemos como uma bandeira normalmente esquecida em função das prodigalidades públicas, a pior delas expressa na corrupção pandêmica.

mockup