LUIZ GERALDO MAZZA
Memória mal tratada
Hoje, 16 de favereiro, é centenário do mestre Ernani Simas Alves, uma das figuras marcantes da nossa medicina, e que viveu até 19 de janeiro de 2000 como membro do Conselho Penitenciário do Paraná e da Academia Paranaense de Letras. A ligação com o penitenciarismo decorreu da sua condição de professor catedrático de Medicina Legal, obtida em concurso no qual figurou em primeiro lugar, isso em 1952, catorze anos depois de graduar-se em Medicina pela Federal do Paraná.
Da sua obra, além de conferências e artigos em revistas e jornais, constam um ensaio de Medicina Legal e Deontologia e um livro de ficção, agora em segunda edição, sobre a "Atlântida - Berço da Civilização". Dirigiu de 1965 a 1967 o Hospital de Clínicas e também o Instituto Médico Legal do Paraná por 25 anos consecutivos de 1951 a 1976, estabelecendo ali aqueles fundamentos mais fortes da doutrina da organização.
Em 1977, por proposição do deputado Luis Alberto Martins de Oliveira, recebeu na Assembleia Legislativa a Cidadania Benemérita do Paraná.
Biografias como as de Ernani Simas Alves, pai do arquiteto Sergio Todeschini Alves, uma das expressões da área profissional, lembram uma das rotinas do jornalista José Vanderlei Dias que radiofonizava a vida de figuras relevantes de nossa história na então Rádio Guairacá num programa denominado "Tronco dos Pinheirais". Essa é uma das carências dos nossos dias, ainda mais quando perdemos cultores da memória paranaense como o jornalista Jorge Narozniak que atuava na imprensa e na televisão e deu base para documentários que abrangem até a nossa proto-história e deixou ensaios históricos, inclusive um sobre o Contestado.
Indispensável é que além do mundo puramente acadêmico o jornalismo se valha desse tipo de culto. Em passado distante tivemos Romário Martins, Júlio Moreira e o médico e antropólogo José Loreiro Fernandes que se ocupavam, e isso de forma sistemática, de levantar sítios e locais das nossas aventuras como se fez com a experiência socialista romântica da Colônia Teresa Cristina tocada pelo médico francês Jean Maurice Faivre na bacia do rio Ivaí. Esses do mundo acadêmico motivavam o jornalismo como se dava com o também antropólogo Oldemar Blasi na revivificação das ocupações da República Teocrática Guarani. Carência hoje é pesadíssima.
Lembretes de memória
Temos evidências significativas de desídia, descuido para dizer o mínimo, da memória paranaense. Há o caso clássico da biblioteca e documentação, a mais relevante da terra (em jornais, revistas, almanaques) de Adir Guimarães, cujo acervo ofereceu ao governo que não captou a importância do material no governo Paulo Pimentel. Resultado: essa indecisão dos burocratas levou a um absurdo, a aquisição desse material pela Universidade de Camberra, Austrália. Quem quiser ter informes sobre o Paraná até meados dos anos 60 vai até lá e já aproveita para conhecer cangurus, o ornitorrinco e o diabo da Tasmânia.
Comigo mesmo aconteceram coisas de espantar em descuido mnemônico: ao lado dos críticos de música popular, Alceu Schwab e José Maria Pires, fiz o script de um documentário sobre o carnaval brasileiro desde o "Abre Alas" até os anos setenta. Ricamente apoiado em depoimentos de artistas da velha guarda, extraídos da Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, ao longo de uma gravação com mais de oito horas, fizemos um sucesso na Radio Independência. O pior é que sumiram as fitas de gravação e scripts.
Isso ocorreu anos antes também comigo na inauguração do Canal 6, associando, com um filme documental, imagens de Rugendas sobre os vários estágios da história colonial, dirigido pelo cineasta Salomão Scliar, roteiro de Valêncio Xavier e script de minha autoria, música de Vila Lobos, "A Primeira Missa". Uma ousadia o filme com imagens praticamente hibernadas com apenas alguns movimentos de travellings de índios acionando arco e flecha ou improvisos como o de uma dessas caravelas de decoração usada em movimento para marca a cena do ataque a um navio negreiro na baia de Paranaguá no episódio Cormorant. Apesar de toda a surpresa provocada perderam-se imagem, som, texto.
Lembro do texto inicial: O oceano é o desafio, a época é dos descobrimentos.





