Marionetes insuportáveis
Seria intolerável que a campanha sucessória mostrasse Beto Richa e Gleisi Hoffmann numa permanente troca de acusações, o primeiro alegando que a situação financeira do governo se deve às amarras da União que impede a transferência de benefícios e o segundo contestando que tudo se explica na má gestão e no mau uso dos recursos públicos.
As derradeiras campanhas eleitorais foram horríveis, mas essa promete superá-las se os atores principais, ainda mais em pleito polarizado, demonstrarem tal nível de insuficiência. Corremos, no entanto, esse risco que não será uma emulação entre um governo tucano, o regional, e o nacional do PT, em termos de ganhos e doutrina. Até porque a postulante do Paraná era uma das figuras mais fortes da hierarquia como ministra-chefe da Casa Civil.
Um confronto de feitos, centrado em doutrina, permitiria o aprofundamento das diferenças entre duas visões de socialdemocracia já que o PT, ao menos em termos formais, aboliu os antigos referenciais ao socialismo que não pega bem a essa altura dos acontecimentos. Aburguesou-se, como se dizia, e hoje faz a cena e o discurso para simular compromisso, dando dimensões aos pequenos avanços obtidos e longe, muito longe, de uma revolução, insistindo-se na farsa de que cara que ganha mil reais é classe média com toda a inflação, isso porque está atolado no consumismo e é um devedor endêmico.

Conflito sem graça
Vejamos a essência dessa troca irritante de acusações; é verdade que Beto Richa é gastador, mesmo com avanços de até 17% na arrecadação conseguiu aumentar, em escalada homérica, os dispêndios. Pendurado na LRF, Lei de Responsabilidade Fiscal, está impedido de acesso a empréstimos e repasses da União. Dá para perceber, no entanto, que há seletividade no tratamento como se vê no caso do Rio Grande do Sul, que teve acesso extraordinário aos depósitos judiciais com o banco estatal, que retém tais valores, como garantia.
Para evitar o constrangimento de atrasar pela vez primeira o pagamento do 13º salário, criado justamente por seu pai José Richa, o governo desenvolveu esforço inaudito para honrar as três folhas num total de R$ 3,6 bilhões e desequilibrou o tesouro e ficando com dívidas de R$ 1,1 bilhão com prestadores de serviço, fornecedores e empreiteiros.
Um esforço especial, acertado entre poderes, estabeleceu o Caixa Único e as bases para o acesso aos depósitos judiciais e essa operação pareceu contaminada, mas não comprovada, pelo jogo político que levou o filho do presidente do TJ, Clayton Camargo, à postulação no Tribunal de Contas, questão até hoje em exame tanto no STJ como no CNJ, no mínimo constrangedora pelas aparências e presunções postas em relevo.

Os estamentos
A alegação de Gleisi Hoffmann de que teve atuação meramente republicana em relação ao assunto obviamente é insatisfatória mesmo em se tratando de um órgão estamental como a Secretaria do Tesouro Nacional, quase no nível da Receita Federal que ferrou a Petrobras em multa de bilhões que só foi contida no Poder Judiciário. E o pior é que com a algaravia do governador os outros ministros de Estado, originários do Paraná, também passam a ser tidos como indiferentes à situação como se estivessem em seus postos para atender demandas provincianas, o que também não é razoável.
Há organismos que não são obrigados a estar com o governo e a STN é um deles, pela abrangência da vigilância que exerce sobre todos os entes público. Só há uma forma de atuação: a do respectivo enquadramento nas normas. E a atuação estadual tem sido disparatada ao ponto de ir ao STF para querer retirar das exigências o despendido com a previdência, ou ainda, outro absurdo, buscar a retirada dos gastos com o terceiro grau que vários governos não souberam passar à federação como fizeram mineiros e gaúchos.
Não houve flexibilidade da parte da União e o governo estadual, atarantado, já nem sabe o que pleitear. Será intolerável que isso se transforme no foco da campanha e não tenhamos, como a oportunidade oferece, um debate entre visões, ambas da socialdemocracia, para o agir de ambos em relação à sua ideologia e aos seus compromissos programáticos nos seus respectivos espaços de governo e, mais ainda, que perspectiva oferecem ao Paraná dentro de uma dimensão brasileira.

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