LUIZ GERALDO MAZZA
Ideologia e imaginário
Fala-se que as utopias sumiram do mapa e que com isso o exercício da política perdeu a sua dimensão mais relevante, a do imaginário, no qual o espectro ia do infravermelho ao ultravioleta com alguns matizes entre um polo e outro. A queda do muro, que deu origem ao texto de Fukuiama, na verdade uma apreciação superficial sobre seus efeitos geopolíticos que retomavam o tema do fim da história já apreciado na dialética hegeliana.
Não surpreende existirem pessoas que por serem petistas negam a evidência da queda de água nos reservatórios (o de Vossoroca aqui perto caiu a 15%) sempre atribuindo as notícias à uma conspiração da Rede Globo. O fanático é assim e o é porque é escasso de alteridade, da noção do outro, em quem não respeita a liberdade.
Quando a exasperação psicossocial, como se deu na Alemanha nazista, ganha intensidade não surpreende o fato de um Heidegger, um fenomenologista de primeira ordem, ter sido olhado como simpatizante do regime, logo ele que convivia com a Hannah Arendt, outra batalhadora da democracia. A construção dos conteúdos mesmo de governos superficiais, e dá para lembrar o de Sarney com o seu refrão "tudo pelo social" ou experiências nossas como as de Requião com sua luta, sem qualquer base científica, diante dos produtos transgênicos, é facilitada por nossa vivência populista do getulismo para cá e que encontra seu ápice no lulismo.
Nesse momento alguns dos arquétipos em moda como o do horror à privatização, presente na greve dos carteiros e na resistência dos sindicatos à aliança da empresa de assistência federal ao Hospital de Clínicas ou ainda na operação padrão do Porto de Paranaguá, levam a presidente Dilma mexer na semântica para não trair-se na filologia, dizendo que suas medidas são de parcerias, apesar das concessões extremas em portos e aeroportos. A covardia do PSDB em não ter o peito de defender as privatizações é que alimenta esse furor transformado em verdade revelada.
Mobilidade ideológica
A direita, por exemplo, não se manifesta, manietada por essa carga. Tanto que os partidos com esse ajuste topográfico não o assumem. Já nos Esteites, onde há mais civilização, a esquerda verdadeira não é a de grêmios marxistas ou anarquistas, mas a "new left", essencialmente liberal, dos democratas. Aqui quando há um tom liberal se diz que é de centro e nunca de centro direita. Todavia essa onipotência não traz resultados, a não ser o do comissariado, vocação de tantos expressa no maior espetáculo de ocupação de espaços não apenas do aparelho estatal, mas das agências reguladoras e equivalentes naquilo que se dizia existir sob Jango Goulart uma "república sindical", embrião distante, remoto, disso que está por aí.
Há também a militância daqueles que aderem por uma suposta ideologia e na crença de que Lula-Dilma melhoraram efetivamente a situação dos mais pobres não como evolução normal, mas decorrentes daquele timbre que mesmo despojado do tom socialista tenta sugerir uma "revolução" como na Venezuela se faz sob a retomada bolivariana, cada vez menos evidente no desabastecimento e na perda de prosélitos como a última eleição o revelou.
O integralismo, a tese da democracia orgânica, ideada nas corporações de ofício da Idade Média, foi um dos momentos fortes da direita assumida e com o mesmo horror dos liberais cultuado pelos comunistas. Quando olhamos os quadros que compunham essa direita dá a ideia de como o Brasil intelectualmente piorou: eram integrantes do seu conselho dos quarenta o maior filósofo do Brasil, Miguel Reale, um gênio padrão Joaquim Nabuco na figura de Santiago Dantas, o cardeal que se transformaria em "vermelho" Helder Câmara e o insuperável pensador católico Alceu Amoroso Lima, Tristão de Ataíde.
Nenhum deles permaneceu integralista com a passagem do tempo e também das circunstâncias. E todos, embora de intelectualidade superior ao chefe, também um homem de letras, prestavam uma certa vassalagem a Plínio Salgado, liderança maior, com tiques caricaturais que lembravam Hitler pelo poder de persuasão. E tão convincente que em 1955, disputando a presidência da República, venceu em Curitiba e Ponta Grossa. O tom idealista do discurso responde pelo feito.





