Liberdade e liberticídio
Com os rolês nos shoppings, como estão prometidos, estabelece-se uma discussão: seriam eles uma extensão dos movimentos de junho, um direito legal ao combate à discriminação social, enfim uma defesa candente da igualdade? Pela igualdade, quase no tom do iluminismo francês, houve manifestações bem documentadas do PCC na penitenciária de Piraquara, isso é os condenados pela justiça brigando por aberturas nos direitos de cidadania. Quem sabe pedissem isonomia com os mensaleiros com seus históricos diários nos jornais.
Há quem acredite que de rolezinho em rolezinho chegamos a uma prática mais visceral de democracia, todavia persistem os riscos de percurso como aqueles decorrentes da infiltração dos radicais do Black Bloc que se valem do capuz para não serem identificados e poderem praticar o vandalismo que depois os discurseiros e teorizadores afirmarão tratar-se de ataques aos símbolos do sistema capitalista como se isso tirasse o sono da burguesia.
Essa discussão em torno de discriminação contra pobres e negros e até os mal vestidos se dá com frequência e tivemos casos de bloqueio em shoppings na capital, alguns deles bem justificáveis como o que impedia que em dia de Atletiba os clientes fossem às lojas com os uniformes dos clubes. Isso dá uma ideia de como é possível perceber que certas interdições, mesmo que pareçam odiosas, têm toda a razão de ser. É quase como num país muçulmano em nome da fraternidade abrir salões, templos, praças, estádios para xiitas e sunitas.

Autocontrole
Certa ocasião vi, numa passeata de sem terras, grupos vigilantes internos afastarem, por exemplo, aqueles que portassem garrafas de bebida alcoólica. Ainda não evoluímos o suficiente para garantir que provocadores não deturpem manifestações. Outra cena, essa de Eldorado de Carajás, foi a de um sem terra tirando a arma de outro que tentava visar a polícia.
O fluxo de junho perdeu impulso justamente pela permeabilidade da massa organizada ter sido infiltrada pelos que desejavam apenas a ação predatória. Percebendo-se que não podiam servir de massa de manobra para a baderna a maioria acabou tirando o time de campo, embora desejosa de continuar todas as manifestações ao longo do tempo quem sabe com o vigor e a energia daquelas havidas na França, especialmente, em 1968 e que um chamamento à ordem, todo legalista, do De Gaulle, mais a entropia da duração do movimento, botou fim em algo que parecia interminável.

A barbárie ao lado
Aquele jogo entre Atlético e Vasco na Arena Joinville foi uma evidência da barbárie potencial desses enfrentamentos que podem começar com provocações orais e chegar àquele nível, tão forte, que justamente o desdobramento cênico daquilo leva a justiça catarinense a um rigor extremo não permitindo, mesmo quando bem fundamentado, o pedido de relaxamento das prisões. Há preocupação em exemplarizar, isso é criar no público a noção de que não deve mais haver espaço para a impunidade.
Da mesma forma, pois, que os rolezinhos podem ser inocentes e até bizarras expressões de solidariedade entre os jovens, como aquela destacada por um adolescente paulista que dizia, orgulhosamente, ter beijado 17 meninas, se ficarem dentro de parâmetros aceitáveis e aí sim olhados como mera expressão cultural, um agito sadio, mas igualmente oferecem condições potenciais para quebra-quebra.
Tolerância é marca de civilização, de convívio frutuoso. Mas em tudo há limites, embora a marcha do tempo assimile, metabolize, os avanços. Lembro quando designado para organizar concursos de miss a glória que foi conseguir que se aceitasse vê-las em maiô e discretos e que hoje caminham para modelos mais ousados. Assim será também com os rolezinhos como também houve com os hippies no início olhados como o fim do mundo e depois como chatos coloridos.
Disse, outro dia, que para os extremamente tolerantes, e por isso em acordo com o politicamente correto, a ação da Al-Qaeda nas torres gêmeas poderia ter sido olhada como um ponto na curva de uma gincana aérea, também juvenil. Mudar por exemplo o nome de arrastão para rolê não lhe afeta a substância.

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