LUIZ GERALDO MAZZA
Missão pertinente
Ainda nas últimas edições desta FOLHA - e isso ganha relevo na transição do ano por seus significados em mudança e esperança - foram debatidos pontos relevantes do nosso temário habitual como o dos desníveis internos entre as várias regiões geoeconômicas e também o da aspirada e não alcançada unidade cultural com a tão discutida identidade paranaense.
Há quem tenha visto a questão da identidade como alguém posto diante do espelho e não produzir imagem. Mas a nossa força está na sentença de Munhoz da Rocha de que o nosso caso é justamente o de unidade na diversidade, algo em permanente fazer-se, em vir-a-ser, um ajuste do amanhã como o da vida afirmada na trajetória existencial.
A simples reflexão em torno das tensões da geografia humana como a da supremacia de algumas regiões em termos econômicos, como a que se dá, de forma inquestionável, em favor do polo industrial entre Curitiba e Ponta Grossa e que ocorre pelas vantagens locacionais especialmente a derivada da localização do porto e da malha infraestrutural que o nutre. Só que esse argumento forte, mas não excludente, não pode ser sentencioso ao ponto de elidir o questionamento sobre os desníveis, velha preocupação dos que buscam formas de desenvolvimento harmônico, aí alcançando a visão da sustentabilidade na sua mais perfeita definição.
Não há região paranaense que não tenha a sua expressão de marginalidade como as encontramos no norte como os boias frias, no oeste-sudoeste em passado recente, com os peões de serraria (hoje em decréscimo, mas com a evidência do trabalho escravo nas áreas de reflorestamento), pescadores e lavradores do litoral e do Vale do Ribeira, um dos bolsões de pobreza mais claramente identificados.
Viver as tensões
Já tivemos, em várias épocas e até justificáveis por certas contingências, desafios à unidade paranaense como a do Estado do Iguaçu, acionada por gente de Santa Catarina e do Paraná empenhada em revigorar uma nova divisão territorial. E isso ganhou força quando maiores eram os investimentos tanto da União como do Estado inclusive o da maior hidrelétrica do mundo, Itaipu. Felizmente isso se deu fora do contexto da nova divisão territorial que viria com Mato Grosso do Sul, Tocantins e a transformação dos antigos territórios.
No Paraná tivemos dois momentos ao norte: um o da criação do Estado do Paranapanema (o que ficasse ao sul seria ironicamente o Paranapamonha) e outro mais integrativo e que tentava repetir em nossa escala a criação de Brasília como capital federal fixando a Capital paranaense em Campo do Mourão com o que se evitava um pega entre Londrina e Maringá. Na verdade a criteriologia não era lá muito geográfica porque se assim fosse a Capital ficaria ou em Manoel Ribas ou Pitanga, ambas essencialmente deprimidas. Quando a Petrobras pesquisou gás em Mato Rico, na região, tivemos uma miniatura do ocorrido em São Mateus do Sul com a usina do xisto diante da movimentação de maquinário e engenheiros.
A bola e a unidade
Nada melhor do que o futebol para mostrar as dificuldades de termos equipes da terra com expressão fora do território. Deu para percebê-lo quando o time do Cianorte derrotou o Corinthians em disputa nacional. Embora o Coritiba e o Atlético tenham sido campeões nacionais e vice da Copa Brasil e também da Libertadores a expressão dos nossos clubes se limita à Região Metropolitana.
É evidente que em dia de clássico dos gaúchos haverá carreata no oeste e no sudoeste e ao norte as preferências serão dominantemente pelos paulistas, ainda que o Londrina tenha chegado às finais do nacional e campeão regional como também se deu com o Maringá. Essa é uma referência singela e didática no campo da cultura, todavia eventos como os de Curitiba e Londrina no teatro, na música e na literatura, isso sem falar na produção local, ajudam a montar o painel desejado de mais unidade com maior carga de identidade.





