Luiz Geraldo Mazza
História mal conhecida
Com o surgimento do livro "Adolpho de Oliveira Franco Advogado do Paraná" de autoria de Walter Werner Schmidt e Adolpho de O. Franco Júnior, há rara oportunidade de reconstituir a vida de um agente político que governou o Paraná num mandato tampão entre Munhoz da Rocha-Moysés Lupion, que atuou como senador, presidente de banco e, sobretudo, como profissional liberal. Temos poucas obras de interpretação da vida dessas figuras, o que é uma deficiência dos observadores da cena política.
A eleição dele para o Senado se dá por obra e graça de Ney Braga na ação para transformar o Paraná, em aliança com os trabalhistas que disputavam com os pedecistas a hegemonia partidária. Um setor trabalhista achava indevida a aliança com um banqueiro e foi uma intervenção do próprio João Goulart, então vice de Jânio (o posto era por votação direta e Jango levou a melhor sobre o jurista Milton Campos), que a defendeu sob a alegação de como diretor do Banco do Brasil ter aprovado financiamento não bem visto pelo governo Café Filho.
Já nessa época - o pleito de 1962, o primeiro com campanha gratuita em rádio e TV - vivíamos sob tensa conspirata da Guerra Fria e daí a suposta resistência a um banqueiro pelos trabalhistas então dominados pelas reformas de base e um nacionalismo extremado sustentado pela usina de ideologia do Iseb, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, criado por JK para ombrear-se com a força da Escola Superior de Guerra que sustentava o compromisso geopolítico da aliança cristã-ocidental e anticomunista.
Um liberal essencial
Há liberais essenciais, sem adjetivos. O maior deles da política paranaense foi Bento Munhoz da Rocha Neto. Na sua primeira passagem como deputado da Carta de 1946 Munhoz faz a defesa surpreendente dos mandatos comunistas, que haviam sido cassados bem como o PCB numa ação geopolítica de Dutra. Esses discursos, que aparecem no "Perfis Parlamentares 32" organizado pelo também deputado Norton Macedo Correa e Luis Roberto Soares, são uma seleção ampla de intervenções no Congresso e que surpreendem pela força desses testemunhos em torno dos problemas universais e brasileiros.
Tanto Munhoz como Adolpho defenderam as ações do golpe de 1964 sustentados na perspectiva doutrinária de cada um e com cujos transbordamentos deixaram de concordar por sua formação democrática. Uma das primeiras conquistas do Paraná de ordem institucional foi a Creai, Carteira de Crédito Agrícola e Industrial, do Banco do Brasil, e o primeiro a ocupá-la foi Adolpho, seguido de tantos nomes como os de Artur Santos, também da UDN, até Léo de Almeida Neves, PTB.
A fuga de Amauri
Um dos episódios que mostra coragem e desassombro em Adolpho é o da ajuda ao seu colega de Senado, Amauri de Oliveira e Silva, ex-ministro do Trabalho e já cassado, refugiado na embaixada da Iugoslávia em Brasília, que foi colocado no banco de trás do carro do senador e conduzido a um aeroporto de aviões de pequeno porte e levado a Santana do Livramento de onde, andando, o foragido se instalou no Uruguai. Esse fato é relatado num depoimento do ex-presidente da OAB-PR Eduardo Rocha Virmond, dentre outros como os de Léo de Almeida Neves, Belmiro Valverde Jobim Castor, Nivaldo Kriger e Luis Alberto Dalcanale.
Em seu governo, Adolpho lançou o embrião do planejamento com o Plano de Desenvolvimento Econômico, Pladep, a política de reflorestamento, criou 11 municípios (entre eles Cianorte) e instalou 24. Suas intervenções como político e banqueiro, em discursos e ações administrativas, estão relatadas no livro.
Quem abriu nos tempos recentes o caminho a esse tipo de investigação biográfica foi o jornalista e escritor Vanderlei Rebelo com os ensaios sobre as duas maiores lideranças do Paraná, Bento Munhoz da Rocha e Ney Braga, dentre os quais Oliveira Franco era uma ponte, discreto e longe de qualquer sentido de espetacularização, marca de sua autenticidade.





