Só falta a anistia
É visível o projeto petista de transformar os agentes do mensalão numa espécie de mártires, quase do nível dos inconfidentes de Minas Gerais e que levaram Tiradentes à morte. Junta-se a aura de lutadores pela democracia (isso nem sempre fica muito claro) no regime militar à de transformadores da realidade brasileira com os quase doze anos de Lula-Dilma. O mensalão foi um remédio heroico para assegurar maioria parlamentar, praxe comum na vida brasileira e por isso comum e se olhado como pecado será venial.
Dizem-se presos políticos quando na verdade praticaram desvios de recursos públicos e numa escalada provavelmente bem superior ao apurado no processo parlamentar-judicial. Toda essa resistência é orquestrada e no momento o foco é insistir na desqualificação do presidente do STF, Joaquim Barbosa, por ser abusivamente midiático. No imaginário de parte do público não contaminado, o ministro é a figura máxima do momento na vida brasileira pela circunstância especial de comandar algo absolutamente original no enquadramento da elite política e parlamentar num país em que a regra é a impunidade.
Dá para imaginar como ocorrerá o julgamento dos embargos infringentes, especialmente com a alteração no quorum do Supremo, e a ação que irão desenvolver os companheiros dentro e fora dos presídios para com sofismas tirar o "ferrão" da vespa, isso é esvaziar a densidade dos delitos e mostrá-los como infinitamente menores do que os praticados pelos cardeais do PSDB com metrôs e trens. Claro que também os padecimentos pessoais de Genoíno como pós-operado (fato já referido pela presidente Dilma Rousseff) estarão nesse "mix" para acentuar a desumanidade dos que punem.

Conflito intermediário
Como já tinha ocorrido antes, nas primeiras discussões sobre o alcance das decisões judiciais que cassam mandatos (tal o vexame do Donadon que serviu para desmoralizar a Câmara Federal como instituição), esse front, o parlamentar, se transformará em peça relevante da sustentação da algaravia primata como se viu na decisão do presidente Henrique Alves em submeter o caso José Genoíno a voto no plenário. Nada como um ingrediente desse porte, conflito intrapoderes, para a logística dessa tensão, dando a entender que o poder político, inegavelmente o Congresso, está em aberta disputa por prerrogativas com o Judiciário.
Daí para as barricadas, manifestações de rua, será um passo e, na sequência, tentativas de fazer aqui o que se pratica, em matéria de primarismo, em países como a Venezuela e a Bolívia. Só que, como ensinava Garrincha em 1958, não combinaram com a sociedade esse ajuste e aí é que os equivocados vão quebrar a cara, tentando levar essa ofensiva para o campo da opção eleitoral. O que, convenhamos, também não servirá aos intentos da candidata à reeleição, que procura mostrar-se cautelosa nas opiniões sobre o Judiciário.

O metrô nos trilhos
Agora caiu o maná bíblico dos céus: já existe denúncia formal contra figuras do tucanato paulista nas investigações sobre os cartéis dos trens urbanos e do metrô com as grandes multinacionais em torno de propinas. É a retaliação em marcha que será seguida de comparações em torno da grana do mensalão e dessa que pode até ser bem mais nutrida. Depois bem ao estilo macunaímico brasileiro se chegará à conclusão que tanto um caso como o outro são comuns e que de certa forma justificariam aquela profecia do Delúbio de que na sequência o evento se transformaria em piada de salão, o que acabou não ocorrendo.
Agora o empenho maior é tentar dar ao julgamento o senso da espetacularização midiática tal qual estão fazendo para colocar mal o STF e seu comandante que de, quando em quando, dá uma colaboração com algum transbordamento.
É por isso que ética em política não passa de discurso e suposta intenção.

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