Uma ideia-força já!
Estamos já no aquecimento da campanha sucessória e percebe-se que novamente teremos a consolidação do marasmo, da inexistência de vida inteligente no processo. Por exemplo essa discórdia em torno das infrações contra a Lei de Responsabilidade Fiscal mostra a pobreza intelectual, a falta de QI, de massa cinzenta no suposto debate: a vacuidade é gritante tanto nos argumentos quanto na pobreza retórica. Como é ruim a nossa representação parlamentar!
Aliás ela piora de legislatura para legislatura: não há talento na astúcia como havia com Anibal Khury, não há vibração oratorial como em Amauri Silva ou num Laertes Munhoz, a persistência missionária de Valdemar Daros em bronca aberta contra as multinacionais da energia, a ironia socrática de Valter Pecoits ante um governo empreendedor como o de Ney Braga.
Essa discussão em torno dos empréstimos bloqueados por infringência da Lei de Responsabilidade Fiscal por parte do governo é reveladora da fragilidade: nada mais maniqueístico e apropriado para o confronto do que um tema desses e no entanto os digladiadores o transformam numa sensaboria, já que não dá para sacar um frase, um aforisma, um mínimo enfim de cintilação intelectual. É verdade que o governo acuado porque consciente das suas infrações percebeu que esse tema, essencialmente técnico, tinha que ser derivado para o campo político por ser a única alternativa e a mais adequada também para justificar o chamado efeito demonstração em obras, realizações ou pelo menos uma ideia.
A um governo, habituado como os outros inclusive o federal, a atribuir-se o mérito dos indicadores geoeconômicos, dos quais se apropria como se não fossem o resultado do esforço coletivo dos vários setores da economia, mas decorrentes das suas ações quando elas se mostram precárias na montagem da infraestrutura (estradas, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos) e bastante frágeis no campo social da educação, saúde e, especialmente, segurança.

O desmonte
Cada governo que se elege ajuda a aprofundar o desmonte institucional: pastas que tinham um direcionamento claro e específico se tornam genéricas e quase sempre com visão "assistencialista" de reciprocidade eleitoral, nada mais; que a prefeitura da Capital está melhor armada, e como sempre a partir de Ivo Arzua-Jaime Lerner, do que o Estado ficou demonstrado de novo na forma como a União acatou o robusto plano de mobilidade urbana da equipe de Gustavo Fruet. Nos tempos dinâmicos - Ney Braga adiante até chegar o time do PMDB-PSDB no poder quando tudo se atrofiou - tínhamos projetos, planos, executivos aptos a coordená-los e executá-los. Lerner é um beneficiário dessa circunstância por ter sido presidente do Ippuc e ali deixado dezenas de projetos que sairiam das pranchas quando assumiu a prefeitura na administração de Leon Perez e foi mantido por Parigot de Souza por causa do ritmo febril das ousadias urbanas que empolgavam o País. No regime militar Lerner como Saul Raiz eram garotos propaganda do lado positivo de tudo o que se fazia.
Mas nessa época tínhamos quadros e tanto que os exportávamos como se deu com tanta gente como Rischbieter na Fazenda, Affonsinho nos Transportes, Maurício Schulmann no BNH, Eduardo José Daros no Ipea, Luis Antonio Fayet no Banco do Brasil. Hoje os quadros são restritos e a obsessão eleitoral acaba incompatível com qualquer visão de médio e longo prazos: não há pensadores e sim marqueteiros a darem sustentação aos governos, adequadíssimos para a notória ausência de profundidade no debate. Gestões que tiveram um Alípio Ayres de Carvalho como estrategista, Norton Macedo como doutrinador, Belmiro Valverde como organizador, Ernani Reichmann, Fausto Castilho e Lamartine Correa como pensadores. Sumiram os referenciais, decadência visível.

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