Ciclo do liberticídio
Nada mais apropriado para o liberticídio do que um longo represamento das liberdades como se deu historicamente sob Getúlio Vargas e em tempos mais contemporâneos com o ciclo pós 1964. Foi o final da guerra que levou os militares, até para restaurar a democracia, à derrubada de Vargas e a criação da Constituinte de 1946 (invertida, raciocinando em jogo do bicho, dá 1964), uma das melhores cartas já produzidas. Também em 1964, sob os mesmos fundamentos, aquecidos pela Guerra Fria e suas implicações geopolíticas, é que se falava em "democracia" sob o fundamento de que se achava ameaçada pelo populismo, que afinal está no DNA de Brasil e latinoamericanos.
Frentes parlamentares formavam o divisor de águas: a ADP, Ação Democrática Paralamentar, e a FPN, Frente Parlamentar Nacionalista, ambas se alinhando conforme as diástoles e sístoles da Guerra Fria. Embora o tom modernizante de 1964, cuja origem estava nos campos da Itália com tenentistas como Cordeiro de Farias e lideranças intelectuais como a de Castelo Branco e que recuou em 1961 na renúncia de Jânio para evitar a Guerra Civil (o general Machado Lopes, do 3º Exército, foi o principal fator de equilíbrio na resistência de Leonel Brizola e da brigada gaúcha), tivemos um período de bloqueio às liberdades seguido de violência e tortura por aparatos especializados como SNI, Cenimar e Doi-Codi.
Estamos com razoável tempo de democracia, incomum em nossa tradição, mas de uns tempos para cá as manifestações de rua, seguidas de vandalismo e bloqueio de estradas, mostram a predominância das minorias autoritárias diante de governos com seus aparatos de segurança absolutamente dominados em busca de formas de repressão que venham pelas leis e não à bala de borracha, spray de pimenta ou as bombas de efeito moral. A autoconservação do Estado, a sua legítima defesa, reclama o uso da repressão quando não há espaço ao diálogo, mas a memória recente dos anos de chumbo transforma o fato em tabu e ninguém ousa avançar o sinal, reenergizando o liberticídio na autoridade e na rua.

Ruptura inevitável
O governo segue o estilo ampliado de Vargas na cooptação de centrais sindicais, movimentos sociais, setores do empresariado. Nunca se viu em nossa história uma ocupação tão forte do Estado brasileiro por um grupo no poder, o que não impede o afloramento de contradições por essa cooptação orgânica bem parecida também com as do "faccio" de Mussolini ou a de Salazar em Portugal e de Franco na Espanha.
Se politicamente há aparência do "tudo dominado" por que essas evidências da baderna tão organizada quanto a do crime como a do Comando da Capital que promete, diante da anomia estabelecida, uma Copa do terror já para o ano que vem em meio às disputas futebolísticas e depois algo mais monstruoso numa espaço geográfico menor, dois anos depois, o dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Se a bravata não tem um tom de chantagem, já que o PCC se atribui também à baixa de crimes em São Paulo como obra sua e não da polícia, o fato é que se as provocações das turbas persistirem em ritmo crescente o poder público, embora com o coração sangrando, se verá obrigado a reagir para que não se estabeleça a ideia de que estamos numa guerra civil não declarada.
Até aqui, no entanto, aciona-se o velho hábito brasileiro pela retórica e até um ministro, Gilberto Carvalho, supostamente numa linha libertária, mas de traço liberticida, aconselha que não se criminalize um movimento como o dos Black Bloc, enquanto a presidente Dilma Rousseff censura-os apenas por não serem democráticos.
Como dizia Taleyrand a palavra foi dada ao homem, especialmente ao político, para dissimular o pensamento.

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