As bolsas de dona Redonda
Uma jovem de Curitiba virou uma celebridade da moda, ainda que passageira, por ser a autora dos modelos de bolsas que a personagem de "Saramandaia", a dona Redonda, hoje bem mais agigantada do que a da novela original, utiliza com seu estilo espalhafatoso. Apesar do tom caricatural da personagem e do estilo do produto a coisa pegou.
Esse fenômeno da sociedade massiva e dos seus meios de comunicação fazem parte da rotina: a cada momento um saque novo sob o impulso da propaganda, como se viu nesse caso dos bonés de Apucarana, inseridos num "merchandising" da novela "Ti Ti Ti", e que devem obviamente ter dado um retorno excepcional à cidade e à indústria que tanto a identifica. Mas o fato ganhou relevo não pelo feito inteligente e criativo da sacada, mas sim porque a inspetoria do Tribunal de Contas enquadrou prefeito, prefeitura e a Associação Nacional das Indústrias de Bonés, Brindes e Similares num processo em que correm o risco de devolver aos cofres públicos os R$ 140 mil despendidos na operação.
O curioso é que badalar governos e inclusive fazer o culto à personalidade, o que é expressamente interdito pela Constituição, passam livremente como coisas normais nas prestações de contas junto ao TC, e tanto que uma das batalhas do saudoso conselheiro João Feder, mestre em Legislação e Ética, era permanente contra um hábito bem nosso: o da subvenção de jornais, de programas de rádio, de sacanagens como aquela que apanhou o presidente da Câmara Municipal de Curitiba, João Claudio Derosso, em dispêndios de mais de R$ 30 milhões que, ainda por cima, beneficiaram a proprietária, então esposa do vereador.

O incêndio florestal
No processo militar, em que fomos enquadrados em 1964, que visava a equipe do jornal "Última Hora" no qual incluíram alguns deputados e comunistas para acentuar o dado subversivo, houve um momento excepcional quando o jornalista já falecido, Cândido Gomes Chagas, perguntou se não era o caso de enquadrar os que financiavam a sucursal curitibana do órgão de Samuel Wainer e apresentou como prova um cheque assinado pelo ex-reitor da Universidade Federal e naquele momento ministro da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda, como paga de uma série de reportagens de interesse do governo Ney Braga sobre os incêndios florestais. Esse tipo de produção jornalística, paga mas tida como matéria da redação, o que supostamente lhe conferiria mais dignidade do que um anúncio, é do vício da província, o que jamais foi alvo de glosa, apesar da doutrinação eloquente de João Feder.
Dá para imaginar o tumulto que uma revelação dessas provocou na Auditoria de Guerra da 5ª Região Militar, fermentando a disputa entre "pombos" e "falcões" do poder dos milicos. Candinho Chagas comentava: "E os que pagam ao jornal, tido como subversivo, estão livres de responsabilização?".
Prova também dos descuidos em torno das formalidades no foro militar que se mostrava permeável a manobras que gerassem divisionismos castrenses e que até poderiam se transformar em castrantes.
Como se vê o "merchandising" político-institucional da tradição passa sem crivos, como se deu na denúncia do Candinho (que estava no processo como testemunha de defesa de Edésio Franco Passos) na Auditoria de Guerra, mas esbarra no rigor da inspeção técnica do Tribunal de Contas quanto ao emprego da propaganda indireta para realçar Apucarana e seu produto chave, o boné, e justamente numa iniciativa louvável a serviço da autoestima do seu povo. Essa é de firmar bem o boné na cabeça.

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