Luiz Geraldo Mazza
Manchetes e caricaturas
Manchete da imprensa paranaense no caso dos embargos infringentes acatados por Celso de Mello: "Condenados à liberdade por tempo indeterminado". Ela traduz uma opinião forte e reveladora da frustração da maior parte das pessoas e também uma crítica ao rebuscamento das medidas protelatórias a que tanto se ajusta, culturalmente, o Judiciário.
Não se trata da condenação à liberdade a que todos estamos sujeitos na visão do existencialismo de Sartre, mas um desfrute que favorece por mais um tempo os mensaleiros que 79% dos paulistas desejariam ver já na prisão. Como é indispensável aguardar os acórdãos calcula-se que o processo tenderá a estender-se até o ano que vem, tempo de fermentação eleitoral, que pode até acabar favorecendo a base aliada na medida em que venha a funcionar algo bem nosso, o incorrigível vitimalismo. De repente os acusados de hoje, até por sua suposta trajetória de resistência (casos de Zé Dirceu e José Genoíno), serão olhados como "mártires" da causa nivelados às vítimas do regime militar na medida em que for inculcada na população a tese de que o que houve ali é da praxe brasileira como se viu na arregimentação para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e na Operação Uruguai de Collor comandada por PC Farias e também na trajetória do tucano Azeredo das Minas Gerais revelador do operador chave Marcos Valério. Circunstâncias inesperadas abortaram parte desses eventos como a bronca bíblica entre irmãos Pedro e Fernando Collor por causa de uma rede paralela de meios de comunicação que o ex-presidente montava e no caso do mensalão o atrito entre o deputado trabalhista Roberto Jefferson e José Dirceu que deu margem à denúncia.
O vitimalismo
Casos clássicos de vitimalismo são frequentes na política brasileira como o de João Pessoa, assassinado por motivos passionais, mas que serviu também como ingrediente da revolução de 1930; o retorno em glória de Getúlio Vargas no pleito de 1950 como uma reparação ao seu longo exílio, embora com mandato de senador, em São Borja e as consequências do suicídio do presidente no Catete em 1954 que asseguraram, eleitoralmente, a manutenção de uma versão, um tanto quanto barroca, das frentes populares europeias na liga PSD-PTB, que elegeria Juscelino Kubitschek e Jango Goulart.
O impacto da Carta Testamento levou à exacerbação popular com ataques a jornais de oposição, especialmente a Tribuna de Imprensa de Carlos Lacerda, o maior e mais articulado de todos os algozes: depredação de instalações ianques, quebra-quebra, a fúria tomando conta das ruas de todas as cidades. Herdeiros do getulismo como Goulart e Brizola se beneficiaram. Lembro de meu colega de turma, afinal nos formamos naquele ano na Federal, Léo de Almeida Neves, com um alfinete vermelho na lapela como se fosse uma gota de sangue de Getúlio Vargas, a quem esse grande paranaense presta permanentes homenagens em livros e artigos de jornal.
Na morte recente de Guschken, elemento-chave de Lula e que foi absolvido no mensalão, viu-se um pouco desse exercício com a afirmação profética de que a história fará a redenção dos petistas. Isso marcou emocionalmente o instante do desenlace e dá uma ideia perfeita de como o vitimalismo opera, mesmo com os personagens ainda em liberdade e que poderia acentuar-se com a prisão. Verdade é que a oposição, intimidada com os altos índices de aprovação de Lula, fugiu à responsabilidade histórica de enquadrá-lo formalmente, de ao menos pleitear uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar sua participação no processo do mensalão. Prevaleceu o axiomático "não sabia" apesar da curta distância entre o seu gabinete e o do chefe da Casa Civil, José Dirceu.





