Luiz Geraldo Mazza
Comando nulo
Seria impensável numa gestão comandada por um Ney Braga, que não era um autoritário mas sabia comandar, esses choques no interior de secretarias como a de Segurança e no Ministério Público, tal qual se dá rotineiramente com Beto Richa. A existência de facções pode até ser tolerada desde que não afete, de forma operacional, o seu funcionamento.
Isso se agrava em instituições como o Ministério Público, que superam amarras históricas de submissão e buscam levar a autonomia ganha com a Carta de 1988 a sério. Há evidências hoje de um ciclo novo como o processamento e condenação do ex-governador Jaime Lerner, não apenas em função da denúncia como também do trato que lhe deu o Judiciário. O órgão ponta de lança do MP hoje é o Gaeco, instrumento eficaz de investigações, normalmente apontado por denunciados como abusivo e ilegal. E foi em função dele que a PEC 37 foi derrubada quando tinha tudo para ser aprovada e respaldada nas passeatas de junho, numa expressão clara da decantada democracia direta em função de "provocatio ad populum".
Episódios como o mais recente do pleito do Gaeco para que o Conselho do MP desautorize a sua permanência na pasta de Segurança e o anterior do ataque de policiais encapuzados à mansão de lenocínio e jogos proibidos e tida como protegida oficial revelam que o problema é um só: o governador faz cara de paisagem para os problemas, obstina-se em manter-se em campanha eleitoral, e nem sequer transmite energia e determinação nos curto-circuitos internos e quanto mais em cenas abertas de confronto.
Facções internas
Quando as disputas internas em corporações se dão em função de busca de maior afinamento de doutrina ou eficiência - e isso pode se dar em todos os escalões como o da Educação em função de concepções de como conduzir o processo - é uma forma até de aperfeiçoamento e também de analogias úteis. Para isso existe o comando e que não pode, em nome de uma delegação radical de atribuições, ficar à margem. Há casos em que tanto o culto à personalidade, como se dava nos regimes comunistas antes da queda do muro, como uma presença excessiva do governante inibem a iniciativa e a criatividade dos órgãos delegados.
Beto Richa faz questão de parecer diferenciado diante do seu antecessor e em especial na forma como conduzir a abertura do mercado a investidores nacionais e estrangeiros, a competitividade na dinâmica interna, condenada à inércia com o governador de então transformado num espantalho a dar coices em empresários, usando o terror do alarmismo contra a El Paso ao afirmar que a usina de gás de Araucária iria explodir e o que quase nos custou demanda de US$ 800 milhões numa denúncia feita numa corte arbitral de Paris.
Aí é que a diferença de estilos não compensa: Requião sugeria comandar demais como se via nos "shows" da escolinha e Beto parece esperar que os conflitos se deixem metabolizar com a passagem do tempo.
Aparar excessos
Se há excessos na atuação do Gaeco ao efetivamente abusar do midiático (às vezes isso decorre do ceticismo em que denunciados sejam punidos, daí enquadrá-los vigorosamente a meio caminho e até execrá-los) o juiz de possível distorção é também o governador mais do que a própria corporação. Como os excessos do Gaeco há as trapalhadas da Segurança, visíveis na opereta bem trágica da menina assassinada como naquele evento da mansão invadida por policiais no melhor estilo "Black Bloc". O governador não comanda, não transmite aos seus auxiliares, de forma clara, o seu inconformismo como se nada tivesse a ver com o que está acontecendo, uma especie de sujeito oculto da análise lógica.





