O aceno da Copa
A inviabilização da Copa em Curitiba foi um dos argumentos usados pela Procuradoria Geral do Estado para obter a liminar no STF que nos tirou, pelo menos momentaneamente, do sufoco financeiro. Obviamente não se trata de tese e sim de uma das referências da situação atual.
Observa-se por aí que a Copa, que se transformou de santificada em vilã, depois do berreiro das ruas e das analogias entre o padrão dos nossos serviços públicos de um modo geral e os exigidos pela Fifa para os estádios, é algo que mexe até com a sisudez dos julgadores da superior instância. Da beatificação à satanização foi um passo gestado na turbulência psicossocial que tomou conta do país. Na verdade é estranha a referência porque tanto o governo estadual quanto o municipal, embora adversários, decidiram não botar um tostão a mais na prodigalidade da reforma da Arena da Baixada, exatamente por levarem em conta o "background" das ruas. Na verdade os dispêndios de Curitiba, se comparados aos do Maracanã, do Mané Garrincha e os de Manaus e o de São Paulo são bem insignificantes.
Nas primeiras notícias referentes à venda de ingressos para a Copa, e tudo em alinhamento moderno, supera o que a Copa das Confederações havia assinalado em movimento de turismo, taxa de ocupação hoteleira, também testada na Jornada da Juventude que trouxe o Papa até nós. Pode realmente se tornar um evento capaz de colocar bem o Brasil, embora o ceticismo militante diante das nossas notórias fragilidades reafirmadas, recentemente, nos Jogos Panamericanos, quando de um orçamento de R$ 800 milhões chegamos a um dispêndio de quase R$ 5 bi e com uma herança de vila olímpica e suas ruas e prédios comprometidos, o que se confirmou no combalido Estádio Engenhão, hoje condenado.

O padrão Fifa
O uso do padrão Fifa para nossos serviços públicos visa colocar em evidência que não temos senso de prioridades. E ao festivamente, como era a postura da época de nossas autoridades, o presidente lembrando um animador de auditório, colocarmos tanto a Copa quanto os Jogos Olímpicos do Rio como reafirmações da grandeza nacional, apenas fazíamos uma vez mais aquilo em que se esmerava o Conde Afonso Celso com o ufanismo brasílico, tão decantado na música popular com Vicente Celestino em "Terra Virgem", com aquele registro de cantor de ópera, entoava "O meu Brasil para aumentar a sua glória/ Dia virá em seu futuro ascensional/ em que o mundo invejará a sua história/ porque serás um paraíso universal". E seguem apologia aos campos que se perdem no horizonte, o sol e o céu de anil, "a natureza que se mira numa fonte/ enche de frutos o regaço do Brasil".
Quando tomamos aquelas iniciativas a economia ia bem, a do Brasil também e não tínhamos as asperezas de agora com alterações no câmbio e a manutenção de um ciclo inflacionário até aqui não esgotado e já indicando os primeiros sinais de estagnação e uma possível minirrecessão. Se fizéssemos um mínimo de esforço para melhorar a poupança nacional justamente naquele momento hoje o cenário seria mais equilibrado e com antígenos para enfrentar calamidades.
No imaginário nacional a Copa, mesmo que repetindo a tragédia de 1950 no Maracanã pelo mau futebol que estamos jogando (a vitória sobre a Espanha na Copa das Confederações realimentou o mito de que somos o melhor do mundo) injetará otimismo no País para novos exercícios de triunfalismo, como é da nossa teimosa tradição. Haja, portanto, essa dose de escapismo. Espera-se que até lá o ulular das ruas esteja mais contido que aí ficaremos mais preocupados com os encapuzados do Black Bloc do que com os uniformes futebolísticos das seleções nacionais. Que seja volátil como o câmbio agora.

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