LUIZ GERALDO MAZZA
Ideograma persistente
Certa vez, a convite do governo, tive participação num daqueles debates sobre ação social em Faxinal do Céu e discorri sobre a dicotomia indevida, todavia persistente, do econômico e do social. Que aliás volta a ser enfocada quando se utiliza referenciais como os do IDHM como fez esta FOLHA na edição de domingo. Fiz referência a um ideograma oculto no econômico-social, aliás acatando as advertências do padre Lebret do Movimento Economia e Humanismo, que é uma expressão forte na filosofia desenvolvimentista de unidades em que atuou ou em que esteve presente por sua equipe da Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, Sagmacs. O Plano Trienal de Ney Braga é inteiramente fundamentado nessa concepção e como foi editado em cima do golpe de 1964 dá para imaginar a dificuldade que teriam os seus mentores em adotar, por exemplo, um plano massivo de alfabetização concebido por Paulo Freire, como sugeriram.
Exemplo Brasil-Cuba
Brasil e Cuba são dois exemplos extremos de dicotomia: o primeiro com seus sinais de sociedade complexa, mas ainda com visão assistencialista para as desigualdades, porém saudável na perspectiva capitalista com seus níveis de renda e os surpreendentes indicadores de pleno emprego; o segundo, admirável na parte social e quase zerado na econômica, mormente após o fim da injeção de recursos da extinta União Soviética. Não é saudável a sociedade que busca reduzir as desigualdades com programas do tipo "Bolsa Família", mesmo quando estimula a frequência às escolas, na hipótese aí, sim, correta de haver ascensão social.
Governantes como Roberto Requião e agora Beto Richa costumam valer-se do IDH para revelar sensibilidade, o primeiro tentando acenar para um sentido de prioridade; o outro citando a circunstância de a nova unidade da Klabin sediar-se em Ortigueira, reconhecido bolsão de miséria. Da mesma forma que se aconselha, e isso visivelmente não acontece, que junto com as Unidades Paraná Seguro haja malha de atendimentos sociais, serviços públicos, a presença do Estado enfim; também seria irônico que com o impacto da Klabin se premiasse poucos, tal qual se deu aqui, pertinho de Curitiba, na construção da Usina Capivari-Cachoeira, que mal aproveitou trabalhadores de Antonina, embora a proximidade geográfica.
Doutor Ulysses
Além de aparecer como o IDHM mais baixo do Paraná qual a vantagem de Doutor Ulysses, fincado no Vale da Ribeira, estar integrado à Região Metropolitana de Curitiba? Obviamente que uma ligação asfáltica quebraria o seu isolamento, mas seria necessário o chamado "arranjo econômico local" para que iniciativas irrigassem a área. Assim meros cuidados sociais não bastariam como não bastou para Cerro Azul a ligação rodoviária.
O Paraná já teve formas melhor elaboradas de acompanhamento micro e macro regional de sua realidade, fazia parte da rotina dos seus quadros tanto na área de planejamento quanto na de desenvolvimento municipal. A impressão que perdura é que houve um desmanche das estruturas burocráticas e do seu acervo ante um certo deslumbramento com as concessões ao campo privado, algo mais apropriado ao que Norberto Bobbio chamou de liberal-liberismo quando o culto à Dama de Ferro se tornou o fato mais relevante do neoliberalismo, como se o "laissez faire" tivesse dominado o horizonte.
Nossa carência visivelmente é de filosofia. Não temos sequer hoje o pensamento condoreiro de um Munhoz da Rocha, o senso do futuro de um Parigot de Souza e a atuação integradora de um Ney Braga, capaz de, por seu alcance, unir todos na noção da unidade físico-cultural e do desenvolvimento.





