Luiz Geraldo Mazza
O charme da violência
Enquanto a sociedade contabiliza o acervo das conquistas com as passeatas que abalaram o país - maior concentração da classe política, respostas nos vários poderes às demandas colocadas - há um resíduo negativo que ficou: o dos grupos com características paramilitares, uniformizados e armados em milícias, que passaram a valer-se da rebelião para liberar sua agressividade. A persistência com que agem e a noção de logística no exercício do vandalismo mostram que sabem o que querem o que não acontece com as forças encarregadas da dissuasão que não encontram receituário nos seus códigos de ação para impedir que a anarquia se estabeleça.
Conceituado como "black bloc", valendo-se desse mimetismo do movimento de massas, tem hoje uma postura imperial nas ruas como se tivesse corpo fechado, tais as mesuras e os cuidados que a autoridade toma ao confrontá-lo como se fustigá-lo pudesse implicar em infração grave aos direitos humanos. Esperar que haja formas de isolá-los na base do autocontrole ou que à maneira das torcidas de futebol que entregam infratores à polícia ajam na mesma direção é ingenuidade. É uma razão como a dos terroristas que quando cometem algum atentado sabem que inocentes serão mortos e feridos mas esse tipo de escrúpulo não afeta a causa maior, a de semear o pânico e lavrar a anomia.
Gerados num movimento justo, a indignação coletiva, em ação parasitária, deram a uma verdadeira "guerrilha urbana" um aparato inconfrontável. Saber a linha distintiva que os separa do reivindicante pacífico é o primeiro ponto para melhor identificar o "inimigo".
Caldo de cultura
Como essas manifestações têm substância política para atingir governantes acaba elegendo palcos como a Avenida Paulista e a frente da casa do governador do Rio de Janeiro para os confrontos em que a repressão é derrotada e sempre como o fator negativo, afinal a guarda do poder. Movimentos sociais têm as suas cautelas contra provocadores, daí, por exemplo, o MST, em passeatas, cuidar de retirar do grupo aqueles que portam bebidas alcoólicas. É um exercício de autocontrole sobre minorias e não grupos organizados e com foco em ações vandálicas, como já está mais do que explicitado.
Mesmo em Eldorado de Carajás há um momento nas cenas gravadas em que um dos integrantes do MST toma uma arma de um companheiro, dissuadindo-o, o que não impediu o desdobramento trágico, mas deu o sinal do autocontrole. Se a massa dos pacíficos não puder isolar os vândalos é melhor que não sirva de cavalo de Troia para aquilo que desnatura o sentido original da reivindicação. Que a polícia pelo menos saiba identificar o beligerante do cívico radical.
Mimetismo
De todos os mimetismos o do "black choc", que teve origem nas primeiras reações públicas ao neoliberalismo e aos símbolos capitalistas, é o de maior afronta ao sentido mais limpo das manifestações. O aspecto difuso do foco pode ir ganhando definição com o tempo como se fez com abuso "imperial" da Fifa que mandou a nossa soberania às favas e distorceu inteiramente o mínimo senso de prioridades sem o qual ninguém governa. Isso não justifica sabotagem à Copa e aos Jogos Olímpicos decididos num momento de triunfalismo como se Lula e os governadores estivessem num programa de auditório de TV.
Como alertou Delfim Neto uma das definições da rua foi a que o povo quer metrô e não estádios padrão Fifa e daí todos passaram a querer o tal padrão para as nossas deficiências em saúde, educação, segurança, previdência.





