LUIZ GERALDO MAZZA
Quem pensa?
Há uma dúvida sobre se existe alguém, dentro do governo, pensando o Paraná. Fora existe sim: nas universidades, nas entidades como Fiep, Faep, Fecomércio, mas cada uma voltada para um núcleo de preocupações. Não há quem pense, de forma abrangente, integral, o que somos e o que pretendemos.
Lerner tinha uma sala para esse tipo de reflexão que chamava de "Chapéu Pensador". Era de tirar o chapéu, mas não pensamento.
Com tantas secretarias, autarquias, empresas estatais, apesar de tudo, não temos uma forma coordenada de ver e de pensar o Paraná. No desmanche do aparato estatal muita coisa se foi, como uma área de excelência dentro do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem. Parece que de encomenda: seria impossível que aquele organismo, com o fervor de sua história, se dobrasse à acomodação do pedágio. Pois o DER foi esquecido para a novidade quando poderia dar ao plano alguma sustentação técnica e operacional; fazer, por exemplo, o papel correspondente ao de uma agência.
Há figuras, mesmo no atual governo, que têm embasamento teórico para bem discorrer pelo setor em que atuam, como o Dividino no Porto e o dirigente da Ferroeste. Às vezes acho possível, ainda que considerando a pobreza de quadros disponíveis, fazer sessões de imersão em problemas paranaenses mais ou menos como no modelo do governo Lupion, com as equipes multidisciplinares do antigo Pladep, Coordenadoria do Plano de Desenvolvimento Econômico do Paraná. Como na situação atual, não havia obras, mas a ligação rodoviária entre a Capital e Ponta Grossa foi concluída, faltando acabamentos que Ney Braga atacou como se a obra fosse sua. Vi no Pladep discussões e projetos como o que traria a usina experimental do xisto de Tremembé para São Mateus, acompanhei os estudos para uso de nebulizadores no combate às geadas na cafeicultura, a produção de vacina por equipe da terra para combater a gripe asiática. Era o Estado atuante, não contemplativo, embora agigantado, e ineficiente de hoje.
Seria possível hoje recriar algo como o Pladep? Talvez nem sentido tivesse, mas uma sessão de brain-storm com técnicos e especialistas emplacaria e até poderia substituir, com vantagem, a "escolinha" de Requião, no mínimo uma vez por mês. À época de Lupion uma sessão do Pladep proporcionava uma reflexão, em forma de show em meio a debates sobre o Paraná: os agentes da ciência, da arte, da educação, da saúde, da segurança davam seu testemunho em termos de diagnose e projetos. Sessões do Pladep eram feitas para comitivas da Escola Superior de Guerra e Escola de Estado Maior do Exército. O Estado, ente público, não se escondia, tinha projetos em todas as áreas.
Não é impensável fazer essa experiência: ela revelaria que há vida inteligente na administração pública, aliás cruzando concepções com as do setor privado, hoje bem mais atuante como se vê em projeções da Fiep, calcadas em sondagens por todo o Paraná e definição de prioridades.
Ainda no governo Requião, sob coordenação do sociólogo e cientista político Ricardo de Oliveira, se fez uma incursão ao que chamaram de "arqueologia" do processo político-administrativo. Participei de uma dessas mesas, que abordou o histórico do planejamento paranaense, com o falecido mestre Francisco Borja Magalhães.





