O falar de flores
Como o tempo é de arregimentação, pleno engajamento, dá para lembrar da criação de Geraldo Vandré, inferior mil vezes à "Disparada", mas adequada a cenários como o de agora "Pra não dizer que não falei de flores". Pois assisti um grupo da direita, que ganhou uma eleição na área do professorado, a entoá-la como fator mobilizante, o que lhe retira o monopólio de pertencer à esquerda como se acreditava. Vandré, talvez depois de muito sofrimento nas mãos da ditadura, andou recuando e, em certo momento, agradando militares. Na verdade em 1964 quem soube fazer a hora e não esperá-la acontecer foi a reação ao governo legal representada pelas marchadeiras beatas. É que com o comício das reformas na Central do Brasil houve uma espécie de desafio ao outro lado, isso é os que não pensavam como nós, para um teste das ruas e os 300 mil foram um número pequeno perto das procissões de 700 mil e até um milhão em várias capitais brasileiras com apoio óbvio de organizações internacionais e da Cia, o que sinalizaria, pelo tamanho das manifestações, a intervenção militar.
O mito das barricadas não é apenas uma criação do iluminismo francês volta e meia restabelecido como se viu em 1968 e ainda recentemente nas explosões das minorias étnicas comandadas pelas redes sociais. Nunca, porém, tivemos algo como se dá agora com essa extensão e capilaridade e quem achar que sabe como isso vai terminar é porque está rigorosamente mal informado.
Sonho de alguns - a invasão de estádios e a interrupção da série de jogos da Copa das Confederações - não aconteceu porque a falange da repressão era maior do que a das reivindicações, o que não se deu nos cenários mais dispersos, mesmo quando se tratava dos palácios da Alvorada e do Itamarati.

Palavras de ordem
Nem toda palavra de ordem tem mística suficiente para aglutinar, mesmo quando centrada numa disputa religiosa, como o dessa convocação de evangélicos para discutir os gastos públicos no encontro dos jovens católicos do mundo inteiro e o papa. Com o background do agito, uma provocação dessas ganha dimensão bem maior e pode repentinamente transformar o Brasil num campo de disputa entre concepções religiosas e se há quem mais se ache vocacionado para o martírio é justamente o grupo mais arraigado do confessionalismo.
O Brasil tem, como os países modernos, uma tradição de tolerância e convívio nessa área e seria espantoso se católicos, em revide, tentassem obstaculizar celebrações como a Marcha com Jesus ou os evangélicos tumultuassem as festas da Padroeira do Brasil e do Círio de Nazaré. Aliás, o ecumenismo dos anos 60, sob o comando de João 23, avançou pouco no Brasil, o que daria bem maior permeabilidade à coexistência necessária entre concepções que surgem da mesma raiz de concepção do universo.
Convenhamos, porém, que no campo da especulação política não apenas crenças rivais, mas qualquer grupo tem o direito de questionar tanto os dispêndios da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos como o desse encontro de jovens de todos os continentes com Sua Santidade.
Mas é no exame de um assunto delicado como esse que se percebe o quanto o momento atual favorece e fomenta a ruptura do equilíbrio entre o que se pode e o que se deve fazer. No momento de mais aguda arregimentação, urge um mínimo de reflexão em torno do saque clássico de Horácio "modus in rebus". Moderação nas coisas, para sustentar a dimensão humana desse momento.

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