Totalitarismo liberal
Há situações como a que o Brasil (na Turquia a dimensão é outra) enfrenta em que a liberdade, tomada como um fim em si mesma, é também um totalitarismo: o princípio da autoridade, necessidade imperiosa num sistema de lei e ordem, se estiola ante a opinião pública que reflete o impulso das massas e não sabe o termo, o final, das manifestações porque cada cabeça tem uma ou várias reformas a serem feitas no Estado. Diante das posições do liberal Ralf Dahrendorf sobre as extensões da liberdade, Norberto Bobbio, este mais à esquerda, discutiu o que seria o ‘’cidadão total’’, provavelmente um modelo saído dessa linha bem à brasileira, a do momento de crispações.
Recentemente um setor da esquerda mundial se deteve nas análises feitas por Foucault, um dos seus ícones, vendo aspectos positivos na onda neoliberal por esse exercício quase ‘’ad infinitum’’ da liberdade, afinal o anarquismo sempre esteve de alguma forma ligado a valores do socialismo como doutrina (Proudhon, Bakunin) e não como sistema instalado porque aí sempre se caracterizou como Estado policial, mesmo quando se delega aos ‘’comissários’’, organizados em falanges e brigadas, essa intervenção o que as aproxima das também totalitárias do nazifascismo.
A quase unanimidade declarada em favor das passeatas e marchas que tomam conta do País dá bem a medida dos riscos que corremos, posto que todos se apressem em combater as distorções do vandalismo, inevitáveis na conjuntura.
Não há confiança na democracia em que pese ser em seu nome que se processa a marcha libertária que também tem um viés liberticida, pois ela pressupõe a vigia da lei e da ordem, a representação parlamentar (em que pese a erosão dos que a encarnam), a existência de agentes intermediários, a tripartição dos poderes e agora a mística da democracia direta, afirmada no artigo primeiro e seu parágrafo único pela vez primeira em nossa tradição constitucional.
Como se vê a liberdade pode, num certo momento, virar totalitária, também uma contradição em termos na filologia e na semântica, aí à vista de todos.

E agora?
Redes sociais convocam manifestação, hoje, diante do Tribunal de Contas contra a indicação de políticos para o seu conselho. Recado direto contra as postulações preferenciais de deputados. Deputados não gostam do fungar na nuca quando categorias se organizam em suas instalações.

Advocacia
Quem vai ganhar com essa grita generalizada será a advocacia: indenização em cima de saques e depredações, da abertura das praças de pedágio, bloqueio das rodovias e uma nova e agora mais motivada redescoberta do caráter leonino das concessões nas estradas. Compatibilizar a ordem jurídica no caos dá nisso e o pior será a aceleração do ritmo das decisões. Plebiscito, como mostrou o TSE, não pode ser a tintura de arnica para as dores articulares do governo.

Refluxo
O ativismo político do momento já dá sinais de fadiga do material: o nível de acatamento das ‘’ordens’’ nas redes sociais está baixando, mas qualquer ruído pode reacumular energia outra vez. A autoridade pisa em ovos, andar ninja.

Folclore
Bem afinal o que é liberdade: no final dos anos setenta teve uma definição ao gosto da moda ‘’é uma calça, velha, azul, desbotada’’.

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