Luiz Geraldo Mazza
Especialistas de plantão
Dizem, obviamente com sentido irônico, que no Brasil há mais antropólogos do que índios. É uma das profissões mais convocadas para laudos em favor da demarcação de terras e também no caso específico dos quilombolas. No momento da insurgência que ninguém a rigor sabe explicar também jorram especialistas em psicologia das massas, sociólogos e cientistas políticos, abreviação para tantas especificidades que vão da filosofia à epistemologia, da metafísica à Teodisséia.
Já se afirmou também que só no Rio de Janeiro há mais ongs que cuidam das crianças abandonadas do que todo o acervo estatístico de menores em situação de risco. Tudo decorre de um amor esparramado à burocracia, ao patrimonialismo que está na essência de nossa civilização, se é que a temos e também num velho e penoso exercício de maior atenção ao diagnóstico do que à profilaxia.
Diagnose essencial
Diagnosticar a multifacetada carga que leva a multidão às ruas por todo o País acaba se transformando numa agenda abrangente que requer uma depuração para que nela não entre a idiossincrasia ao patrão e ao síndico do condomínio, uma crise de hemorroidas ou a descoberta do próprio mau hálito. Divertido é ver todo dia algum governador, prefeito, ministro ou senador tentando faturar algo em cima da rebelião indiscriminada: o Alckmin, por exemplo, suprimiu o aumento do pedágio, mas concedeu vantagens às concessionárias no cálculo dos eixos dos caminhões. Esse, pelo menos, a gente soube o acordo: aqui o segredo é o mais absoluto nas relações entre o governo e as pedagiadas. Sabemos que elas não são dadas à prática da filantropia e estão aí duplicando trechos, acertando acessos e tudo isso flui misteriosamente como se o princípio de que somos obrigados a confiar no governador fosse axiomático e dispensasse qualquer tipo de explicação, como se decorresse, tal qual nas monarquias, de uma imposição inquestionável do Direito Divino.
A Pec 37 tinha tudo para ser aprovada: a OAB nacional se colocara a seu favor o que levou a seccional paranaense a mudar seu ponto de vista em defesa do poder investigatório do Ministério Público. Os xerifes já festejavam o feito quando ela pintou nas faixas e cartazes das passeatas como expressão sintética do não à impunidade. E assim se deu com tantas outras coisas e até essa busca de uma saída pela democracia direta, afirmada no texto constitucional mas não regulada, via plebiscito. E não queriam referendo porque sabiam que o Congresso atual está mal nas avaliações dos manifestantes e fosse qual fosse a sua posição ela seria rejeitada.
Haja provocações
Como em situações tumultuárias como essas até as novelas tendem a incorporar esses movimentos já se imagina a polêmica que geraria um caso de "cura" dos tantos homossexuais que pintam nas novelas. Os héteros acham que se subverte pondo a exceção em supremacia sobre a regra: isso é a desproporcionalidade entre os gays ficcionais e os da realidade, tema também tão difícil de clarear quanto à causa primeira, matriz, da agitação nacional.
A propósito uma questão pertinente: a derrubada de Collor se deu mais em função da série "Anos rebeldes" do que da Une, sempre aparelhada e sem o poder de fogo do passado, hoje irremediavelmente chapa branca. Pois saibam da coincidência: antes das primeiras manifestações o Canal Viva está a reapresentar a série, algo que tem a força da nostalgia do não vivido por essas massas juvenis.





