Supressão fascista
Um dos temas mais recorrentes na visão moderna da democracia é o da participação que ganhou relevo especial com a vitória do PMDB os anos 80 e de José Richa que o transformou em rotina de interlocução com a sociedade. Quando porém o assembleísmo, comandado pelo PT, aquele tempo ético, mas perturbador, ameaçava o sentido das reuniões, Richa condenou aquilo que se chama de democratismo como Marx chamou de esquerdismo a doença infantil do comunismo.
Quando os governos cooptam esses entes intermediários - OAB, CNBB, SBPC, etc - há uma quebra na espinha dorsal do sistema e cria-se o corta-caminho para a ditadura em sua forma aparentemente negociada. Vimos aqui no Paraná Requião nomear um presidente do Sinclapol (dos polícias) para ombusdman, o ouvidor da polícia, designar dirigente sindical dos delegados para cargo em comissão e até membro do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura para a Copel. Ora deveria em todos os casos ter havido resistência à sedução ao assédio governamental. O pior é que nossa cultura governista se instalou no sindicalismo, mais no modelo pelego do que o da autonomia como na relação-patrão empregado nos Esteites. Nosso empresariado perdeu a perspectiva da autonomia e nunca foi tão governista como nos tempos de agora, facilitando inclusive os hábitos intervencionistas.
Essa a dificuldade de visualizar a democracia direta que está no background do lado limpo das manifestações juvenis na sociedade brasileira. Suprimir entes intermediários é marcha para o fascismo. No regime militar, mais do que quaisquer forças, operaram a CNBB, a OAB, a SBPC e ABI que tiveram inclusive participação decisiva no "impeachment" de Collor. É evidente que não substituem partidos indispensáveis no regime representativo em que pese o seu protagonismo negativo no momento atual.

Drenagem
Bastou uma precipitação incomum, em três dias correspondentes a um mês, para que o Paraná inteiro revelasse a fragilidade do seu sistema de drenagem, daí a tragédia das cheias e dos desabrigados. Em Curitiba a suposta regulação da vazão dos rios nos parques como o do Barigui não funcionou por insuficiente. Isso tudo tanto governo como prefeitos tratam como emergência e não buscam soluções duráveis até porque a inteligência sumiu do espaço público, restando na emergência o esforço da Defesa Civil, determinado, mas precário.

Cartolina
O desejo de participar, de escrever palavras de ordem, nas manifestações em andamento (que paralisam o governo federal), acabou com o estoque de cartolina nas papelarias da praça.

Dispensa
Preparando-se para eventuais ataques, a direção do legislativo estadual dispensou seus funcionários mais cedo ontem e anteontem.

Folclore
Na greve dos jornalistas de 1963 uma piada de mau gosto quase me complica: dizia que o jornalista Valmor Marcelino, já falecido, veio com uma bandeira soviética no piquete, em que já havia um carro gigante dos bombeiros para rompê-lo, e eu lhe teria recomendado: "Essa não, a antiga". No IPM, no QG, por incrível que pareça, um coronel fez alusão à temeridade nada engraçada.
Queria ver aqueles militares, tão ciosos de suas posições, enfrentar a caudal de agora, essa a mais complexa de todas as ocorridas no Brasil que você não simplifica ao chamá-la de subversiva.

mockup