LUIZ GERALDO MAZZA
Verga, mas não quebra
A versão oficial é a de que o governo verga, mas não quebra, que aqui é nome de escola de samba. Cada hora há uma evidência forte de que, além de estar no Seproc federal, aquele representado pela Secretaria do Tesouro Nacional, por nossas inadimplências em convênios, temos o não pagamento de contas primárias como as dos Correios e alugueres de repartições, alvo de ações de despejo, o que não o impede de continuar gastando mais do que arrecada, doença incurável.
Desde o ano passado, um dos maiores senhorios de edifícios públicos, o Raad, aciona o governo, na Secretaria de Segurança Pública, pelo uso das instalações da Diretoria da Polícia Civil, como já o fizera em relação ao Tribunal de Justiça pelo prédio da Mauá, hoje integrado ao Judiciário, por não pagamento dos respectivos alugueis. Essas questões que o governo em suas dissimulações dirá tratar-se de casos pontuais deixam à mostra a quebra financeira.
O mais grave é que não se sinaliza, em hipótese alguma, uma mudança de atitude, voltada a um mínimo de racionalidade e o balcão continua operando a todo vapor como jogadas como a da compra de um hotel 5 estrelas para sediar a Procuradoria Geral do Estado e a ansiosa expectativa em torno do "Tudo Aqui" que nos comprometerá a longo prazo, tal qual se dará com arranjos nada claros nos contratos com as consorciadas do pedágio. Tudo voltado para o amanhã, afinal não estaremos sempre assim marchando em areia movediça, embora o uivo da realidade nessas pendências singelas com os Correios e os despejos.
Comprometimento
Há um esforço de certos setores, tanto do movimento social como de políticos, para importar a histeria de outros centros urbanos, Rio e São Paulo, em torno das tarifas do transporte coletivo para Curitiba. Nada impede que tais ações aqui aconteçam, pois afinal os fatores psicossociais que as sustentam ainda prevalecem. Há, no entanto, uma coisa clara: se houver turbulência a Polícia Militar será obrigada, por dever de ofício, a agir. Não se pode admitir a reprise da papagaiada do tempo de Roberto Requião quando deu ordens expressas para que a milícia estadual não interviesse na invasão da Ferrovila comandada entre outros por Doático Santos, hoje ligado ao governo na campanha para isolar o seu ex-líder.
Quando a PM lançou as bombas de efeito moral (e físico, é claro, porque houve gente queimada) em 1988 contra os professores que cercavam o Palácio, gestão Alvaro Dias, ela colocou em prática os planos possíveis de evitar o vexame, desejado pelos mais radicais, de invadir a sede do Executivo. Uma imposição do dever institucional (que revelou a tibieza de Alvaro Dias ao tentar lançar toda a responsabilidade na corporação para fugir ao desgaste que o marcaria, por muito tempo, como tatuagem) levou a PM a valer-se da cultura acumulada para técnicas de dissuasão e dispersão e que acabou contestada no front político nos vai e vens dos IPMs instaurados.
Obviamente não dá para comparar o estilo de Beto Richa com o de Requião pelo traço mais contido e diplomático e é impensável que na hipótese de baderna a Polícia Militar se esquivasse de suas responsabilidades até pela lembrança de lamentáveis episódios anteriores como aquele da Ferrovila e outro no ataque ao líder do MST, Teixeirinha, morto em Campo Bonito, num revide ao massacre de três PMs, da P-2, que, descaracterizados, foram abatidos. Por esse evento o Brasil foi condenado na instituição de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, OEA, e que renderam tributo à mulher e ao filho do líder sem terra assassinado.
A memória é uma componente indispensável de uma corporação como a PM e cujas ações ou omissões formam o seu caldo de cultura, sua história, sua saga.





