Uma esquerda genérica
Na área do pensamento a esquerda brasileira é bem mais efetiva do que na ação e isso se constata nas teses de doutourado, mestrado e, vez por outra, em ensaios publicados em instituições como Cebrap. Já o produto do que se chama de esquerda no cotidiano do exercício político é de uma pobreza radical. Aliás deu para ver que mesmo com dois candidatos presidenciais tidos como engajados nesse espectro, disputando a eleição em segundo turno, os vimos a fazer concessões a grupos religiosos, católicos e evangélicos, no debate em torno do aborto, olhado como matéria interdita, verdadeiro tabu como o divórcio, de certa forma, o foi lá pelos anos cinquenta, sessenta.
Quando da verdadeira abertura, que foi a primeira eleição presidencial, tivemos maioria de postulantes da esquerda ou tidos como tal: Mario Covas, Leonel Brizola, Lula e Roberto Freire; do centro Afif Domingos e da direita Paulo Maluf, Enéas e Fernando Collor de Mello. O espectro ideológico estava mais ou menos definido sem uma obrigatória polarização como ocorreria na disputa do segundo turno com a primeira das três derrotas que Lula sofreria antes de chegar ao poder.

Lula à sinistra
Inegavelmente mais consistente, pela densidade do discurso, a esquerda estava melhor definida em Covas mais do que em Brizola por seu populismo visceral e houve, como todos se lembram, o empenho da Rede Globo, por temor-pânico ao gaúcho que a suplantara no Rio de Janeiro no episódio Procomsult, em dar destaque a Lula, escolhendo-o para a final com Collor que também a integrava como capitão donatário da organização em Alagoas.
Todos se recordam da vantagem que Lula levou no primeiro debate e da lavada que sofreu no segundo, caindo em ‘‘pegadinha’’ como a que tinha um aparelho de som que Collor não teria condições de possuir, uma sacada infantil que desequilibrou o petista. Como se não bastasse ter levado a pior, Lula ainda foi massacrado por um edição manipulada que deve ser a origem dessa bronca do petismo pela mídia que deseja controlar como no caso de Brizola foi a de sua aberta desmoralização da Venus Platinada e de uma promessa de que mexeria nas concessões no seu primeiro dia de mandato presidencial, saindo em décadas à frente do venezuelano Chaves.

A genérica
Em função da luta pela redemocratização, Diretas Já, eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral (graças à dissidência no PDS do PFL que romperia o equilíbro inconformada coma vitória de Maluf sobre Andreazza) surgiu algo que se pode denominar de ‘‘esquerda genérica’’, embora nem sempre anti-liberal, que domina o pensamento, a doutrina e a ação política de rotina. A direita foi excluída, tal o horror difundido, como se ela não fosse um polo indispensável do processo e do espectro. O pior é que a direita passou a fazer um discurso de centro-esquerda para acompanhar o cantochão da moda.
A nova esquerda norteamericana, ‘‘new left’’, é essencialmente liberal por ter raízes no Partido Democrático. Aqui isso seria impossível pela dicotomia entre a direita e o suposto avanço civilizador da ‘‘esquerda genérica’’ quando autores como Norberto Bobbio deixaram bem claro que a direita é expressão do liberalismo, comprometida, sobretudo, com a liberdade; enquanto a esquerda tem como seu objetivo, afinal o do socialismo, a igualdade. Por isso ele, membro do Partido Socialista e senador vitalício da Itália, fez de sua trajetória uma ponte entre as nuances do socialismo e do liberalismo, que não se excluem.

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