LUIZ GERALDO MAZZA
Rebeldia sem causa
A rebeldia pode ser exercida sem nenhuma causa, buscá-la já é algo que tenta enquadrar o infrator quando seu propósito é negar as regras. Todas as utopias, quando traduzidas em ação, são construtivas: pois a que praticamente a nominou, aquela de Tomas Morus, é menos relevante do que a resistência que o autor exercitou para defender suas convições em torno da religião, daí porque seu testemunho o levou à santidade.
Foram apodados de rebeldes sem causa, por exemplo, os pregadores sistemáticos da contracultura, o time da beat generation que teve sua filosofia, sua arte e sua expressão nas ruas anunciando uma nova ordem, na verdade a rigor, uma desordem quanto ao statu quo ante.
Essa conversa mole vem a propósito das pichações, fenômeno urbano comum, alvo hoje de uma campanha para denúncias que tem dado bons resultados, mas não suficientes para conter a patologia, o que mostra a resistência daqueles que as praticam. Alpinistas, mais ousados do que os praticantes clássicos desse desporto radical, escalam prédios de 40 andares para deixar suas inscrições, na verdade demarcação de terreno, em toda extensão. Prédios que por alguma razão jurídica ficaram inconclusos têm sido os mais agredidos: há exemplos em Curitiba de ousadias marcadas pelas garatujas e signos que obviamente lembram um código mal decifrado, conquanto as linhas de coerência nesses caracteres quanto às dimensões e ao formato.
Sonhos, pesadelos
Em muitos casos essa ação delétria, que gera prejuízos e de certa forma acaba descaracterizando o ambiente, é uma continuidade das omissões das prefeituras quanto ao tratamento dado à urbe, como se vê nas inúmeras edificações abandonadas, na instalação dos cracódromos em pontos decadentes, no mau estado dos calçamentos, a questão da sujeira e do lixo.
Se nossos utopistas da política, aqueles que queriam as barricadas e um novo regime quase sempre socialista (e com a garantia de que seus filhos não teriam hemorróidas e muito menos lombrigas e sequer angústia, coisa de burguês), tivessem um percentual mínimo da coragem desses malucos, supostamente sem causa, teriam avançado bem mais do que o conquistado, se é que houve alguma verdadeira conquista. O fato é que mesmo os mais ousados e os generosos que tentaram a guerrilha urbana contra a ditadura raramente desafiaram o abismo com a determinação desses enlouquecidos. Mas na perspectiva íntima clânica, do grupo, certamente cultuam seus heróis, que fizeram a inscrição mais alta e os que porventura caíram e certamente não sobreviveram.
Uma das características desse entrevero, na verdade gangues de bairros, é uma espécie de batalha em que os militantes da Zona Norte invadem e marcam sua presença na Zona Sul, reciprocamente. Ela é sorrateira, sigilosa, porque não é fácil captar a passagem dos comandos de um espaço para outro.
Gaiatice ou infiltração?
Na Avenida Paraná, na casa em que morava o pintor Augusto Conte, nada a ver com o criador do positivismo, apareceu na parede uma proclamação para que esses comandos reproduzissem aqui as ações das Farcs colombianas. Um hiato nas comunicações habituais parecia obra de um gaiato, tentando dar sentido político e ideológico à farra dos pichadores ou até ironizá-la, ou de um infiltrado. Aliás é surpreendente que nada se tenha feito em termos de vigilância inteligente, espionagem, para detectar o significado e o sentido dessas manifestações: entendê-las para bem combatê-las.





