Conflito necessário
Pela vez primeira se percebe um aberto conflito entre os agentes do sistema de transporte coletivo de Curitiba, sempre tido como exemplar e o melhor de todo o país, além de constituir-se num modelo exportado. O BRT, tão referido por Lerner em consultorias internacionais, deu mais certo na Colômbia do que na Capital paranaense. E Londrina se apresta para valer-se do sistema em futuro próximo, como esta FOLHA destacou na semana.
O mal é que por ser um sucesso, haja publicidade nisso como em todos os itens destacados da urbe modelar, não é examinado em profundidade até porque dado como eficaz, daí só termos choques, inevitavelmente politizados, quando levados à temática eleitoral ou num instante de reajuste dramático das tarifas como se dá justamente agora. Não há meio termo: ou se exalta ou se demoniza, sataniza, como fez Requião que, como governador, tentou à exaustão impedir a integração metropolitana, conquistada judicialmente por Lerner.

Um pouco de história
Já me referi, várias vezes, a incidentes históricos como os de 1956 quando de um locaute dos empresários que Ney Braga, prefeito, respondeu com a convocação de viaturas militares para transportar o povão, o que a escala urbana da época o permitia. Em seguida outro militar prefeito, general Iberê de Mattos, de traço populista, pegou parada mais grave: o governador Moisés Lupion, muito ligado a alguns empresários como Erondi Silvério, encampou o serviço para uma área do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem. Ficou famosa a manchete do jornalista João Feder, de ''O Estado do Paraná'' e da Tribuna, ''Lupion ficou louco!''. A justiça derrubou tudo e o ex-vereador de Londrina Edgar Távora, Procurador do Município, foi o artífice da operação que arrestou centenas de ônibus escondidos na Região Metropolitana.
Área também de demagogia e exercícios ideológicos como a da implantação da frota pública pelo prefeito Roberto Requião resultou inútil com 80 veículos ''estatizados'' num conjunto superior a mil. Mas o registro estava lá, tal qual a encenação do porto público, indicando que aqueles veículos pertenciam ao povo, o que pouco refrescava a não ser que os operadores pudessem monitorar todos pelo desempenho dos chapas brancas, o que não foi feito.

A devassa
Chance de devassa é agora: abrir de vez a caixa preta da Urbs em função do acúmulo de atritos como os pela primeira vez ocorridos entre a gerenciadora do sistema, que se declara quebrada, ainda que hipertrofiada, e os sindicatos patronal e dos trabalhadores, também postos em conflito e distantes daquelas operetas que marcavam o ajuste das tarifas. A bolsa de Pandora está aí e o momento para se conhecer a realidade é agora e a turbulência inesperada decorreu da decisão de Beto Richa de não sustentar o subsídio logo depois um tanto amainada pela sinalização de retirada do ICMS do combustível, o que não passa de R$ 0,3 ou R$ 0,4, mas indica uma exploração maior a ser sustentada em outros itens e como forma de atender uma demanda nacional, ainda mais com as consequências inevitáveis dessas tarifas no processo inflacionário.
Tanto Beto Richa como Gustavo Fruet, ainda que antagônicos politicamente, podem de repente se sair bem e até em escala nacional nesse conflito. Urge, porém, que usem a cabeça e a racionalidade e não o emocional fácil das sacadas populistas, que tanto mal nos fazem, especialmente no atraso institucional.

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