Sarney esquerdista

Brizola conheceu a casa de Karl Marx e seu túmulo e fez a observação de que pelo padrão de vida ele não era um excluído. Essa relação entre pobreza e revolução é primária e tão comum no discurso e na exploração política que mesmo figuras sensíveis como o caudilho gaúcho nela embarcam. Esquecem, por exemplo do ''príncipe'' Bakunin anarquista e da circunstância de Engels ser dono de empresa e que apoiava as ações de Marx ou de um Enrico Berlinguer, criador do eurocomunismo ligado a uma aristocrata.
Se há campo sujeito a equívocos é o da ideologia, o imaginário sensível da política, às vezes a sua dimensão onírica, mais de sonhos que pesadelos. Por exemplo: há hoje um clima de abominação contra figuras como a de Sarney, menos por sua atuação clânica, feudal, do que por sua amarra ao poder ao ponto de ter um pé no Maranhão e outro no Amapá. Pois José Sarney, como deputado nos anos cinquenta, era da esquerda e, o pior, da Frente Parlamentar Nacionalista, uma das obscuridades da época montada a pretexto de defender a economia nacional do vandalismo imperialista.
Poucos da UDN eram de esquerda, dentre eles Sarney, integrante da chamada ''bossa nova'', o capixaba Seixas Dória, este um alinhado mais consequente e o grande Gabriel Passos. É que o divisor de águas, como observava Hélio Jaguaribe, do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, ISEB, era entre o liberal cosmopolitismo, advinhação do que seria o neoliberalismo tempos depois, e o nacional trabalhismo, uma solução de risco por causa do reducionismo já que entre uma e outra há nuances bem definidas.

Renan, ex PCdoB

Às vezes uma divisão regional pode ser a causa do embarque de um político numa canoa ideológica: isso deve ter pesado no engajamento de Sarney no Maranhão ao nacionalismo e à ''bossa nova'' da UDN. Lembro que o catecismo da esquerda nacionalista, olha a incompatibilidade dos polos, era o ''Semanário'', no qual Sarney escrevia seus artigos doutrinários juntamente com outros esquerdistas e nacionalistas, inclusive militares.
É também o caso de Renan Calheiros, hoje presidente do Senado, e que já foi da mais aguda facção comunista, o PCdoB, com raiz na política universitária e que era francamente revolucionário, da ruptura, ao contrário do PCB, este mais convergente e conciliador. Há muito a UNE, União Nacional dos Estudantes, é de esquerda: em nosso passado, anos 40 e 50, havia um pacto entre comunistas e a chamada Juventude Universitária Católica, um dos braços da Ação Popular. Hoje é inteiramente chapa-branca, comprometida até a alma com o governo, e isso supostamente sob a alegação de que seria um ordenamento revolucionário, uma forma de despistar o seu fisiologismo adesista.
A beatificação da esquerda, e deve-se isso muito a jornalistas e ao mundo acadêmico, levou a outro equívoco radical - o da abominação do que pudesse lembrar a direita na rejeição ao liberalismo como se este fosse o mal, na verdade detestado por todos os totalitarismos. O esforço de autores bem à esquerda como Norberto Bobbio, o que mais se impôs para fazer uma ponte entre liberalismo e socialismo, se tornou inútil diante dessa visão popularesca e maniqueísta e assentada num confessionalismo mais primata que primário até hoje predominando nas contendas doutrinárias. Esse analfabetismo decorre de falta de leitura e de reflexão e alcança muita gente tida como boa.

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