LUIZ GERALDO MAZZA
Ainda esquerda, direita
Ninguém se diz de direita porque sê-lo é xingamento. Em compensação virou moda ser de esquerda, o que não ofende já que hoje até a Delegacia de Ordem Política e Social, se é que existe, com tantos eufemismos, é de esquerda e, ainda por cima, democrática e popular até outro dia bolivariana.
Como termos antinômicos se ajustam embora a luta pela liberdade do ''outro'', como pregava Hanah Arendt, nunca fizesse parte do decálogo das esquerdas, já que em sua epistemologia a liberdade era coisa de burguês e o liberalismo algo abominável à dextra e à sinistra ou seja pelos comunistas e integralistas, ambos identificados com formas de totalitarismo colidentes, mas semelhantes.
Pouco antes de sua morte, Norberto Bobbio lançou ''Direita, Esquerda'' num momento adequado para definir identidades com o esmaecimento da Guerra Fria. Bobbio não nega o diferencial entre os polos da dialética, mas define os compromissos básicos, essenciais, ontológicos, de um e de outro. Liberdade seria a ocupação da Direita e Igualdade a da Esquerda.
Bobbio foi um dos autores que mais se empenhou para estabelecer uma ponte entre esses polos, isso é entre o liberalismo e o socialismo. Membro do Partido Socialista e senador vitalício sua obra é um permanente esforço de aproximação entre valores que o fanatismo, agregado ao reducionismo de traço ideológico, afastou como dicotômicos.
Vivência democrática
O Brasil está com 28 anos de prática democrática, o que é surpreendente em nosso processo civilizatório marcado mais por ditadura e algumas esteadas de liberdade. E tem sido por essa experiência que avançamos nos dois polos, o da liberdade e o da igualdade com ganhos como o da discriminação positiva e até na estruturação das classes e extratos sociais. E o mais importante é que o fizemos num ambiente de discussão, posto que minado pelo exagero da imposição do politicamente correto, com o conflito entre cotas e meritocracia.
Essa atmosfera permeável à redução dos excluídos se fez e sem arroubos populistas como os do passado e com um ganho essencial: o isolamento dos radicais e crentes nas rupturas revolucionárias. Infelizmente a estrutura partidária é precária, prenhe de fisiologismo e por isso mesmo insuficiente para expressar os matizes do pensamento e da ação política num mínimo de simetria: o PT é aquilo que você pensava, anos atrás, que era o PMDB como o bastião da democracia e do equilíbrio, hoje tomado pelo fisiologismo em sua mais elevada expressão. O PT, ainda nosso mais bem estruturado partido com linha socialdemocrata - a busca do Welfare State, o Estado do Bem Estar, como meta proxima é menos tortuosa que a revolucionária ainda ao abrigo de escassas tendências - reclama por refundação depois do ''mensalão'' que o tornou vulgar ao agir da mesma forma que antes condenava nos outros. Outro que tende a murchar como maracujá de gaveta é o PSDB minado pela apatia e incapaz de defender as ideias que marcaram sua passagem pelo poder, como a da linha das
privatizações e a da lipoaspiração, conquanto limitada, nas dimensões do Estado brasileiro, ainda expressão direta de uma das nossas mais fortes deformações, a do patrimonialismo.





