Voto como purificador
Há quem acredite que o voto é a instância final, capaz de absolver todos os pecados e desvios, como se viu por aqui quando o ex-presidente e o ex-secretário da Comissão Executiva do Legislativo, Nelson Justus e Alexandre Curi, fortemente envolvidos na questão dos diários secretos e funcionários fantasmas, tiveram votações expressivas e apontadas como respostas ao peso das acusações sofridas. Ora a ablução cívica do voto é relevante, mas insuficiente pela circunstância de que não tem potência para gerar indulgência plenária tal qual o sentido religioso da absolvição dos pecados. Da mesma forma, pois, que os procedimentos contra os políticos paranaenses tiveram continuidade, também não se pode aceitar a densidade do Ibope de pessoas envolvidas como fator capaz de gerar uma inimputabilidade, ainda que ela possa existir no imaginário do público. Aliás a demagogia é exatamente o exercício manipulatório em cima da forma como o eleitor identificado com uma liderança vê o político. É por essa razão que constantemente aflora, no subconsciente político, a questão do messianismo como os tivemos com Getúlio Vargas e Jânio Quadros e numa dimensão pop com Fernando Collor de Mello e mais para o barroco agora com Lula.
Eleição não salva
Nunca é demais lembrar que Hitler também foi eleito e tinha um Ibope astral, capaz de perfilá-lo ao lado dos santos e inquestionáveis, mas nada disso se mostrou suficiente para garantir a viabilização do império pretendido. Um dos marqueteiros mais competentes do Brasil, João Santana, sugeriu como remédio eficaz às agruras do PT brasileiro que Lula saísse candidato a governador de São Paulo com o que provavelmente enterraria o PSDB, como continuidade à vitória obtida no município de São Paulo pelo ex-ministro Haddad e que deve ter condenado José Serra ao ostracismo. Nada disso elidiria os malfeitos.
País institucionalmente forte é aquele que separa a operação intrapoderes das maquinações políticas que se acentuariam caso o presidente do STF apoiasse o Ministério Público na prisão imediata dos condenados. O presidente da Câmara Federal transformaria a Casa em exílio dos três parlamentares condenados e teríamos fatores psicossociais fermentando a crise no sentido de conferir traço político, o que é de uma safadeza monumental, às decisões judiciais ainda que um tanto controversas e isso visível no fato de que embargos infringentes podem criar uma nova correlação processual.
A decisão de Joaquim Barbosa poupou as instituições de um conflito de consequências inimagináveis, tal o empenho em andamento dos que buscam, à base do desespero, aliás, tentar à convocação às ruas, o fervor das barricadas, como fez um ministro em gravação em ambiente oficial na forma clássica de ''provocacio ad populum'', insinuação de saída de ruptura à ordem e à lei, uma espécie de ''referendo'' alternativo no ulular das massas. Isso não será suficiente para assegurar a incolumidade do ex-presidente Lula. Num regime democrático - sustentado por instituições estáveis - a melhor das igualdades não é aquela que se obteve na sociedade com a sua mobilidade de classes, inegavelmente obtida, mas é a que faz essencialmente também de um ex-presidente ou de um presidente alguém nivelado a qualquer outro cidadão ante a lei comum, aquela que supostamente a todos obriga e abriga.

mockup