A queda inevitável
Aos petistas, especialmente aqueles que ainda cultuavam a revolução e a luta pelo socialismo, não resta alternativa se não a de encarar os companheiros condenados pelo STF como aqueles que ''caíram'' na jornada. Não foi uma queda na violência do sistema, como se encararia num processo revolucionário, tal qual as vítimas do delegado Fleury ou de militares das masmorras do Doi-Codi ao tempo da resistência à ditadura. Eles foram apanhados em desvios notórios, como a novela da Rosemary indica que também teremos novas surpresas, afinal decorrentes do pragmatismo que tomou conta da agremiação, fazendo, é verdade, aquilo que todos sempre fizeram, conquanto numa escala superior, tal qual se nota no mensalão da base aliada e aquele outro do PSDB de dimensão menor, igualmente imputável como delinquente.

Na medida em que a ''Operação Porto Seguro'' é devassada se percebe a que níveis chegou o tráfico de influência e a persistência ainda na ocupação do aparelho público, mesmo nas agências de fiscalização que deveriam, numa ordem verdadeiramente democrática, ter independência no agir para evitar distorções nos setores privados em suas relações com o governo.

Como se já não bastasse o abandono da bandeira ética, que durante tanto tempo era uma definição ontológica do partido, aos poucos substituída pelo ritual do fisiologismo, tivemos o descalabro de agora do mensalão, que segundo Marcos Valério teria movimentado mais de R$ 300 milhões.

Ainda o melhor
Como estrutura socialdemocrata, o PT, apesar de tudo, é a nossa melhor expressão política. Até a circunstância de ter tantas tendências internas, que o irrigam ideológica e doutrinariamente, quase em circunstâncias assemelhadas ao Partido Socialista francês, lhe assegura maior densidade. Isso, é claro, no plano das ideias e posicionamentos.

Apanhados num flagrante de mão no jarro, para comprar o parlamento, ficam em situação desconfortável para uma defesa apropriada que não seja aquela ridícula de que é vítima da mídia golpista e de um julgamento político. E o constrangimento é de tal ordem que impede setores não contaminados inclusive de um posicionamento firme em matéria ética, mas enche de razões os grupos dissidentes, que discordavam do ''realismo'' excessivo que pode levar à ''realeza'', como essa turma brava do PSOL e de tantas outras microlegendas.

Felizmente para o Brasil e a sua democracia o julgamento aberto, dir-se-ia escancarado do mensalão na mais alta corte de justiça, não influenciou o pleito como se imaginava. Tanto que o PT cresceu e especialmente em São Paulo, onde tem travado a maior disputa com o PSDB, também socialdemocrata, com filtro, porque com muito profissional liberal e empresário e pouco operário, algo impensável no socialismo europeu.

A luta

É legítimo todo o esforço de defesa dos réus do mensalão e isso deve ser levado ao esgotamento, nunca porém tentando mexer nas regras daquele jogo democrático a que se referia Norberto Bobbio: respeito ao livre funcionamento dos poderes e seu sistema de freios e contrapesos. Ninguém é inimputável na igualdade cidadã tão importante quanto a outra, social, que avançou bastante nos últimos tempos.

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