Irreverências religiosas
Não é preciso fazer alusão aos ''Versos Satânicos'' para que se tenha uma ideia das reações fanáticas, de caráter religioso, ora reafirmadas com o filme destituído de arte, mas agressivo na perspectiva muçulmana e que caricatura Maomé e que deu margem à violência indiscriminada em vários países. Uma das piores criações de Jean Luc Godard ''Je vous salue, Marie'', muito antes de ser assistido, deu margem a reações também estúpidas da parte de católicos. Quando o filme passou as pessoas se convenceram de que jamais justificaria a reação até por falta de talento do diretor e pela inocuidade de conteúdo.
Tivemos em Curitiba uma dessas irreverências por parte do pintor Vicente Jair Mendes ao conceber um Jesus com o órgão sexual exposto num mural no Centro de Criatividade do Parque São Lourenço. Provocou discussões, algumas lembrando que Jesus menino fora exposto dessa forma em afrescos clássicos.
No ''Evangelho, segundo São Mateus'', de Pier Paolo Pasolini, a Virgem Maria dos católicos, boa parte deles mais marianos do que seguidores do Filho de Deus feito homem, a santíssima é terrenamente humana e exibe a sua gravidez e o fato em si, ainda que no campo da liberdade estética, chocou alguns, embora a admirável aura de santidade que irradiava.

O criacionismo
Surpreendeu, recentemente, o fato de que na Coreia do Sul se havia adotado o criacionismo como valor religioso, o que parecia um contraponto à densidade tecnológica daquele país e responsável pelo seu salto como potência nos seus programas educacionais que doutrinadores vivem a aconselhar o Brasil a adotar como capaz, aí sim, de uma ruptura em termos de desenvolvimento e que não sejam minadas pelo populismo ou ainda por delírios revolucionários da moda.
Não há parâmetro melhor no Brasil para testar essas ''verdades'' marcadas pelo fundamentalismo do que as criações, em samba e marchinha, nos carnavais. Dá para lembrar algumas delas e que se referem ao Velho Testamento, mais curtido por evangélicos e pentecostais do que pelos católicos. Uma delas é uma peça de doutrinação feminista à moda carioca: ''Papai Adão, Papai Adão// já foi o tal// hoje é Eva quem manobra// E a culpada foi a cobra''. Uma sequência de versos, genial, de expressão sincopada, se segue: ''Uma folha de parreira// uma Eva sem juízo// uma cobra traiçoeira// lá se foi o paraíso!'' Outra quase na mesma direção: ''Adão, meu querido Adão// todo o mundo sabe// que perdeste o juízo// por causa da serpente tentadora// o nosso Mestre o expulsou do paraíso''. Há uma que se refere explicitamente a Maomé: ''Vem odalisca pro meu harém// vem, vem, vem// faço o que você quiser// pelas barbas de Maomé// não olho mais pra outra mulher''. Obviamente essas peças da lira brasileira, por sua delicadeza e irreverência, não seriam capazes de despertar a fúria irracional dos dias de hoje e que apenas revelam a que ponto pode chegar a intolerância e a viva estupidez dos confessionalismos, já que nem o fato de as sociedades em que se deram as violências estarem marcadas pelo multiculturalismo também como a nossa. Essa incapacidade de respeitar no outro o sentido da liberdade, política ou religiosa, nos joga à beira do obscurantismo. A liberdade do outro, tanto quanto a minha, é que sobressai no ensinamento de Anna Harendt.

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