LUIZ GERALDO MAZZA
Democracia de menos
A verdadeira democracia é praticada também na intimidade dos estamentos como a Polícia Militar, por exemplo. E se houvesse, isso em termos de Estado Maior, certamente alguma voz discordante, em termos rigorosamente técnicos, teria demonstrado a inocuidade operacional das Unidades do Paraná Seguro. Afinal a cultura da PM é sedimentada pelo seu cotidiano e manobras, muito semelhantes a essa, como as blitzen de bairros, em passado recente, se revelaram inúteis com o deslocamento para outras áreas dos chefes do narcotráfico.
Essa condição deveria estender-se a todas instituições para que o consenso fosse alcançado internamente. No caso das UPSs, um simulacro das UPPs do Rio, que contaram com apoio bélico e de tropas das Forças Armadas e nem com todo o aparato devolveram a paz às áreas críticas, como se viu anteontem ainda na Favela da Rocinha.
Um dia depois de o governador Beto Richa anunciar a troca do secretário de Segurança a resposta do narcotráfico no Uberaba: um toque de recolher no bairro que fechou escolas e a creche. Evidenciada novamente a inviabilidade de operações duradouras numa corporação que ainda agora carece de efetivo, daí a clareza de que o empenho em foguetear as UPPs instaladas tem o sentido mais de espetáculo e no caso voltado ao imediato da campanha eleitoral. O fato é que a promessa da manutenção de um corpo de PMs é cumprida apenas parcialmente.
Oxigênio raro
Uma das questões mais cruciais da Segurança não é apenas a de reduzir os conflitos que persistem historicamente entre policiais civis e militares, mas também nas relações com o Ministério Público. O governo parece ignorar que há culturas diferenciadas entre essas corporações. Inclusive, há uma ação no STF da Associação Nacional dos Delegados de Polícia pretendendo manter o monopólio das prerrogativas no inquérito policial, afastando o MP. Já há dois votos favoráveis à pretensão dos xerifes, o que aliás não será bom para o País, pois devemos mais ao MP do que à polícia os avanços obtidos.
Se o governo tivesse na administração o potencial que revela na questão política iria muito bem: ele marca pontos, por exemplo, instalando UPSs nos bairros, mas com a passagem do tempo a sensação de segurança desaparece como se fosse volátil, tal qual se observa na série de assassinatos nessas áreas e agora na provocação extrema - o toque de recolher no Uberaba, o que só foi possível porque já não estavam acantonadas no local as forças dos primeiros dias.
E a audácia dos delinquentes se baseou justamente na certeza de que a vigilância estava anulada. Tinham, como sempre, mais informações do que a polícia: domimavam, enfim, o terreno da luta e só agiram pela convicção de que não encontrariam qualquer resistência.
A entrega de setores estratégicos da polícia civil ao Ministério Público é algo que em nada contribui para a solidariedade interna, ficando a impressão da desconfiança já evidenciada em episódios como aquele de uma facção de caráter sindical ter operado num ataque à mansão de jogos e prostituição sem ordem judicial, e, ainda por cima, agindo mimeticamente como rebelados inclusive encapuzados. Não se sabe até hoje como se resolveu a pendência.





