LUIZ GERALDO MAZZA
O subúrbio e a várzea
A sociologia das telenovelas apontou que o sucesso de Avenida Brasil se deve ao ecossistema analisado que é o contexto do subúrbio carioca com seus valores e comportamentos. Em Curitiba, até os anos sessenta do século passado, costumava-se discriminar quem morava distante do centro apodando-o, de forma genérica, de varzeano. Havia um sentido geográfico na apelação porque a cidade tinha várzeas e com elas uma característica, hoje desaparecida, que era a bateria carnavalesca dos sapos. Com a impermeabilização do solo tudo mudou e dá para lembrar que até 1955-57 o asfalto era importado, pois a nossa Petrobras engatinhava e não contava com petroquímicas.
Éramos, portanto, um arquipélago de várzeas, pois áreas hoje centrais como o campo do Poti, praça 29 de março. Quem lá morava era um varzeano em cuja semântica havia tudo de negativo, inclusive referência ao futebol mal jogado. O Centro Cívico, onde havia o campo do Paraná da suburbana, também timbrava o seu morador como varzeano, imagine-se, então, como se olhava o morador da Agua Verde, Portão, Seminário, Boqueirão, Santa Cândida.
Como a ocupação se adensou não dá para aceitar essas discriminações, já que as antigas sesmarias - e essa do Ahu, área conflitada e visada para construções do Judiciário na antiga Penitenciária - sumiram com suas extensões de campo e em alguns casos até criação de vacas como havia em lugar bastante próximo do Palácio Iguaçu, onde uma senhora vendia leite tirado agora pouco.
Nadar onde?
Havia poucas piscinas na cidade nos anos 50 e uma delas, pública, era a do Cassino Ahu, hoje pertencente ao Colégio Bom Jesus. Havia uma fonte de água mineral, alcalino-terrosa, de nome Ahu para respaldar possível enquadramento, com a proibição dos cassinos e do jogo admitindo-os em estâncias hidrominerais ou balneárias. Daí, por exemplo, o saque dos empresários que ganharam a concessão do Pontal do Sul para um empreendimento balneário terem projetado, ao menos em gráficos, um hotel que decalcava um desses cassinos de maior projeção. Popular era o tanque do Bacacheri, o balneário possível com a barragem do rio do mesmo nome. Dos ricos da cidade a chácara dos Pinheiro Lima, desapropriada para erguer o Colégio Estadual do Paraná, tinha uma protegida dos olhares curiosos na avenida João Gualberto por um tipo de cerca viva sobreposta ao muro. Ali não havia varzeanos e sim os barões do ciclo do mate. Varzeano era quem frequentava o Passeio Público para andar de barco, tirar fotos e, sobretudo, tentar conquistar empregadinhas em disputa cerrada com a rapaziada do exército.
O varzeano era um estilo, um jeito de viver, distanciado dos sofisticados, razão pela qual quando o Clube Curitibano fez a sua sede campestre, uma vez que a urbana ficava no encontro da XV com a Barão do Rio Branco, expungiu a caracterização de várzea daquele ponto de intersecção Batel-Agua Verde. Lembra o ocorrido em Itajai, Santa Catarina, onde o Guarani, da elite, passou a sediar um clube de pobres e que diziam, embora o nome da sociedade fosse outro, ir ao baile no Guarani como se assumissem a condição de superiores na escala social. A campestre do Curitibano é a urbana e varzeano hoje é quem mantém os hábitos de uma sociedade de menor ostentação, nada além disso.





