Uma carência recente

É visível que o Paraná perdeu quadros. Não os temos na vitalidade das gestões de Ney Braga e sucessores, a mediania tomou conta do cenário. Há uma dupla como a de Alex Beltrão e Zacarias que montaram todo o roteiro da Companhia de Desenvolvimento Econômico do Paraná, Codepar, e que daria o salto não apenas da economia mas do conjunto da sociedade? Quem atrofiou essa representação foi sobretudo o ciclo, bom em política e péssimo em técnica, do PMDB, ainda que se reconheça algum mérito no primeiro deles, o de José Richa.

O relatório do Tribunal de Contas sobre o ano passado, orçamento herdado de Requião, deixa claro que vamos muito mal: a elegância do texto crítico mostra sobretudo a ausência de planejamento e estratégia, o que é um descompasso com os índices, ainda fortes, da credibilidade de Beto Richa. A ausência de pegada de sua gestão é notória e isso mostra que se tem equipe ela é muito fraca por não ter sabido criar uma interação entre a figura do governador como liderança e o conjunto da sociedade que em maioria esmagadora o sufragou. Ao contrário o que se percebe é que esse capital tem sido dispersado como se não tivesse força agregadora.

Ainda bem que o Chefe da Casa Civil, Luis Eduardo Sebastiani, assumiu o papel de decodificador e contestador, ao menos em parte, das críticas do TC. Ele, que não é dos quadros tradicionais, sinaliza que a renovação é possível.

Governo e sociedade

O Paraná como desempenho econômico está à frente do governo que se revela defasado, atrasado, inepto em estabelecer simetria com o que está ocorrendo como se deu nas situações anteriores já referidas. É verdade que se buscava personalizar demais a figura do governante como indutor do processo, tradição patriarcal bem brasileira, mas o fato é que a sociedade respondia a esses estímulos que partiam da autoridade como se deu também em Curitiba no ciclo de Jaime Lerner. Tanto Ney Braga como Lerner, de raízes assemelhadas, tinham quadros que operavam como correntes transmissoras dessa convocação.

No governo atual, a despeito da seriedade dos números que apontam para uma debacle não apenas financeira (o caso da Paranaprevidência é paradigmático e a ausência de investimentos chocante) persiste o clima de ''lua de mel'', de euforia com o desfrute do poder. Dá a impressão que o time não se ligou em cronograma, na evidência que dentro em pouco estaremos na campanha da sucessão e que o tempo passa de forma impiedosa: quase meio mandato já passou e não se vê nada que corresponda à expectativa criada.

Até que ponto os bons números da realidade paranaense podem ser atribuídos, de forma direta e indireta, ao governo? Hoje as entidades conservadoras como a Fiep, Faciap, Faep se mostram mais preocupadas com prospecção do que os núcleos, se é que existem, estratégicos da gestão pública. Só esse fato é revelador das nossas carências: o Estado se torna leigo naquilo que sempre foi essencial, um mínimo de indicação de rumos.

A carência de quadros, na questão política, favorece Beto Richa, apesar do mau desempenho, visível também na fuga do processo eleitoral municipal, já que se ocupa apenas de Curitiba. É que não pinta no horizonte um adversário.

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