E a militância?
  Marca dos dias pragmáticos e mercenários de agora está no fim do idealismo na prática política. Se a Queda do Muro não foi, como pretendia Fukuiama, o fim da história, pelo menos botou um breque na ideologia. E essa era a força, embora às vezes com mais jeito de farsa, do imaginário nas eleições. Nesse tempo havia militância, um voluntariado disposto a encher os muros com palavras de ordem como aquela ‘‘chupada’’ de Orwell e da ‘‘Revolução dos Bichos’’ com aquele majestático ‘‘Requião tem razão’’, aliás decalcado também do Benito Mussolini ‘‘o duce sempre tem razão’’. O duce, não o Ducci.
  Certa ocasião, numa avaliação pós eleitoral, seguidores de Brizola o ouviam e num determinado momento alguém sugeriu que a militância não tinha sido ouvida, o que foi o suficiente para que o caudilho, com seu linguajar conciso e sedutor, lançasse um desafio geral: ‘‘Mas o que é a militância?’’ E botou ironia demais na reflexão. Nesse momento, uma vaia que o gaúcho não admitia. ‘‘A vaia – disse – é covarde, não tem rosto.’’ Nesse momento a militante Dilma Rousseff foi lá na frente e, diante de Leonel, a carteira de identidade à mão, disse que tinha rosto e ali estava para o debate. Quem me contou a cena foi o José Carlos Mendes, altamente identificado, pelo que me relatou, com a resistência.
Afinal, ela acabou
  Fica ridículo ouvir alguém do PSDB falar em militância. Quem não se arrumou nos dois períodos de FHC ou nas inúmeras gestões estaduais e municipais é porque, como dizia o Velho Capitão, Assis Chateaubriand, não tem jeito mesmo. Generaliza-se a observação para o PT, que enquanto não estava no poder enchia o saco, aporrinhava, derrubava o muro do Palácio do governo, ia ao corpo a corpo das agressões e do terror. Não respeitou sequer a doença de Mário Covas que, debilitado pelo câncer, os encarou numa mobilização do magistério paulista.
  Estamos com 30 anos de abertura e democracia e deu para perceber que a utopia que antes permeava o discurso eleitoral acabou. De realismo em realismo não chegamos à realeza, como imaginei que ocorreria, mas transformamos a prática numa opereta bufa onde o mensalão, seja o principal, o do PT, ou os acessórios do PSDB e do DEM, é a síntese desse lixo em que se transformou a política.
  A militância não tinha acabado no dia da intervenção da ex-guerrilheira, mas isso se deu pouco depois com a profissionalização dos cabos eleitorais, mormente após o processo de ocupação do Estado.
Polos da contradição
  Fica ridículo, por exemplo, valer-se de epistemes marxistas para avaliação dos rumos políticos do dia a dia. Nessa parte, então, o primarismo dos slogans e dos teasers, substituindo, por obra e graça dos marqueteiros, o exercício do pensamento, faz o trabalho diluidor. Vez por outra, lá vem a frase de Marx, a de que a história se dá como tragédia e se repete como farsa. Assessor ideológico pasta muito para assestar frases realmente ditas em cenários que nada têm a ver. A época é a da sagração dos intuitivos como Lula, com uma inegável capacidade de comunicação, mas o estilo inconfundível de animador de auditório, com o Ibope superior ao de Fátima Bernardes.

mockup