Getúlio, o ambivalente

Agora com o livro do Lira, depois daquele alentado do paranaense José Augusto Ribeiro, a figura complexa de Getúlio Vargas volta a ser amplamente discutida até porque com essa onda de transformar o ex-presidente Lula, na visão de alguns, em estadista não são poucos os que tentam aproximar as duas biografias. De cara, na perspectiva da sociedade de massas, Lula tem a vantagem de sua origem obreira, um dos fatores da admiração do exterior por sua carreira e seus supostos feitos. Não custa lembrar que Lincoln também foi lenhador, o que certamente aborreceria os ambientalistas, mas acabou superado pela motoserrra que aqui no Brasil foi usada para cortar adversários como se deu com aquele deputado do Acre, Hildebrando Pascoal, felizmente em cana.
O primeiro operário, fora São José, é claro, a ganhar o mundo foi o Lech Walesa, agitador portuário na Polônia. Essa circunstância de origem é que dá a Lula uma aura especial, embora tenha passado longo tempo de sua vida fora da oficina e distante da fresa. Com todos os defeitos de Getúlio, da volúpia do poder, do namoro ao nazifascismo, não dá para a analogia: especialmente a volta ao poder na democracia, em 1950, revela o estadista que até na tragédia se mostrou incomum derrotando os conspiradores que pretendiam derrubá-lo e abrindo caminho para o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek e a ampliação dos nossos níveis de autonomia.

Cena inesquecível

Em 1953 Getúlio esteve no Paraná para as celebrações do Centenário e num discurso na CIBPU, Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, órgão de planejamento paulista que envolvia várias unidades federativas, revelou que sofria o cerco das transnacionais por causa do ainda precário funcionamento da Petrobras e anunciou, com pompa e circunstância, em função da mesma estratégia geopolítica, a criação da Eletrobrás. Um dirigente de uma dessas gigantes do setor, que pescava trutas no Canadá, botou em dúvida a afirmação do presidente e, obviamente, levou a pior. A política de substituição de importações estava em franca expansão e nela o papel do Estado ia bem mais longe do que o de agente indutor. A cena de 1953 testemunhei como repórter.
Caricaturado pelos adversários, especialmente na ditadura, como ''pai dos pobres e mãe dos ricos'', era dono de um carisma excepcional como o vi, em 1950 no maior comício da história do Paraná, da sacada do Braz Hotel, com 50 mil pessoas arregimentadas na avenida (hoje) Luis Xavier, dividido entre dois candidatos excepcionais ao governo paranaense, os engenheiros Munhoz da Rocha e Ângelo Ferrário Lopes, algo que jamais tivemos, em termos de qualificação pessoal, nos nossos pleitos.

A ambivalência

Getúlio fundou praticamente os dois partidos, o Social Democrático, e o Trabalhista numa sociedade ainda rural (80% da população, anos trinta, da revolução, estavam no campo). O equilíbrio entre um partido que pelo menos na designação tinha compromissos com o ''Welfare state'', o bem-estar, e outro, para atender as demandas do trabalhador e do proletariado emergente. De sua ambivalência há ainda o discurso a bordo do Minas Gerais a favor do Eixo e em seguida a jogada genial que deu ao Brasil Volta Redonda em troca dos aeroportos Afonso Pena e de Natal com os americanos.

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