LUIZ GERALDO MAZZA
Heranças incontornáveis
Ao retornar de suas férias na Europa, o governador tocou na questão da segurança e ao referir-se aos problemas da violência na área da Cidade Industrial disse que resultavam de uma herança de gestões anteriores. Na verdade a região foi ocupada na marra pelos invasores, apesar da grande obra que ali se realizava num condomínio fabril. Governos tanto do Estado como do município agiram com a pasmaceira de sempre diante das invasões.
Como as invasões eram consideradas legitimadas por uma suposta justificativa social gerou-se na área o clima do ''Deus dará'' que permeou vários governos e dentre eles o do pai do atual governador, José Richa, que carregou às costas o então deputado estadual Roberto Requião para fazê-lo prefeito da Capital num confronto com o mitológico Jaime Lerner.
Simulacro de guerrilha
Da mesma forma que as dívidas da Cidade Industrial, empurradas com a barriga como se faz com os precatórios, o lado social turbulento mal encarado pelo governo empenhado em não punir ou prejudicar ''aliados'' deu origem à patologia atual, como se viu na Vila Pinto, no Uberaba e no Cajuru. Mesmo em casos de aceleração urbana, com um novo cenário habitacional, ficaram resíduos da ação notória de lideranças ligadas ao narcotráfico e com senso de logística prontos a mudar de cenário quando as áreas fossem ocupadas, provisória ou permanentemente, pelos órgãos de segurança, como se dará com as tão decantadas Unidades do Paraná Seguro. Uma guerra de movimentos que beneficia o lado da delinquência, como se viu em todas as concentrações históricas da Vila Pinto com operadores se deslocando ao Cajuru. E o que temos visto é que a logística do crime é menos emperrada do que a da polícia.
A cobrança de heranças oferece um risco muito grande em sociedades frágeis como a nossa à renovação democrática: é que como os grupos se repetem no poder se torna visível que em algum momento as forças que estão no governo deram uma contribuição importante para anomalias como a da Cidade Industrial.
Analogia impossível
Comparar o que se faz aqui com o que se dá no Rio com a chamada polícia pacificadora não tem o menor sentido: lá há uma operação beligerante, de guerra, com unidades das forças armadas participando com equipamentos e tropas, razão pela qual é mais fácil fazer propaganda institucional com os morros ocupados. Assim mesmo de quando em quando uma escaramuça provocada pelos bandidos põe em xeque toda a mobilização. Aquela guerra foi comprada pelo governo federal, mesmo que a doutrina existente condenasse esse tipo de intervenção, ainda que às vezes o brio das forças armadas fosse provocado pelas ações da bandidagem que chegava ao cúmulo de atacar e roubar cargas apreciáveis de unidades do material bélico.





