Deontologia na polícia
Se há algo que todos falam sem praticar é justamente a ética. Ela, por exemplo, não existe na política em termos práticos, mas tão somente como cogitação doutrinária, especulação filosófica. Mas o Reinaldo de Almeida César, secretário de Segurança, está anunciando que Faxinal do Céu, que com Lerner se dedicava à formação cultural suplementar dos professores, irá se ocupar da capacitação profissional de policiais civis e militares com sólido alicerce na deontologia, a ciência que estuda a ética.
Se é difícil ética na política, a não ser no discurso e na teorização, mais complexo é entendê-la num segmento sujeito à contaminação da violência. Uma das vítimas da pregação ética, pois ninguém desfraldou-lhe a bandeira com tanta veemência, foi o PT. Transformou-a na essência, no DNA, da agremiação e com o passar do tempo e a prática do exercício do poder percebeu-se que era incompatível com o cotidiano da atividade. Tanto que hoje, depois de pelo menos dois assassinatos de prefeitos e de casos genéricos como o mensalão, só aos ingênuos é permitido referir-se a escrúpulos éticos.
Pregação de Vilela
Um dos entusiastas dos estudos deontológicos na polícia era o delegado já aposentado Almir Chagas Vilela que levantava na Escola de Polícia copiosa bibliografia da temática como professor e dirigente. Delegados não têm a menor condição de aspirar a autonomia conferida a promotores públicos por causa da sua submissão ao poder central. Vemos aqui na subordinação sindical de órgãos representativos dos policiais a maior prova disso. Tanto que os profissionais que figuraram em chapas alternativas à do governo têm sido alvos de fortíssima discriminação, já incompatível com a questão do efetivo deficiente.
Na polícia é mais difícil a aceitação dos teóricos porque uma espécie de maniqueísmo redutor parece dividir a fauna em ''operacionais'' e em burocratas de apoio. Não importa que muitos dos operacionais se caracterizassem como violentos e nem sempre rigorosos com a moral: eles resolviam as paradas e isso é que era fundamental. Notabilizavam-se por operações de riscos e heroísmo e isso os blindava como indispensáveis e até pela liderança que iam erigindo junto aos seus pares.
Difícil imaginar esse tipo de policial preocupado com questões deontológicas e até seria pior que junto à cota de pragmatismo, de efeito demonstração, ainda tivesse um discurso bem articulado voltado ao rebuscamento ético.
Restrição pessoal
À cada debate sobre o tema costumo sugerir que a ética geral é que deve ditar comportamentos e não à reduzida e conveniente ética profissional. Essa questão é muito assemelhada a estabelecida entre direito e moral. O diagrama dos círculos concêntricos a esclarece: o círculo maior e mais abrangente é o da moral e o menor o do direito. Daí aquela definição ontológica de que o direito
é o mínimo ético. A ética profissional tende a examinar o fenômeno dentro do exercício funcional e das suas condicionantes e amplia a faixa de permissão por fatores contingentes, ainda que condenáveis em reflexão mais rigorosa.

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