LUIZ GERALDO MAZZA
Hora da churrascada
Costumam os engajados dizer que o lº de Maio não pode se resumir à churrascada ou aos sorteios mirabolantes das concentrações das chamadas centrais sindicais. Hoje é um dia de disputa entre elas como se estivessem num programa gigante de auditório e apurar quem dá mais prebendas.
Se o discurso anterior, supostamente voltado à alegoria da luta de classes, tido como mais firme e mais revolucionário, já não seduzia também o papo da busca de conciliação entre o capital e o trabalho virou chatice monumental.
Na doutrina de desenvolvimento do Paraná há um momento inspirado quando recebe os nutrientes do Movimento de Economia e Humanismo do padre Lebret que aqui era representada pela Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, a Sagmacs, que praticamente elaborou o Plano Trienal de Ney Braga ainda na vigência do governo João Goulart.
Centrado no solidarismo cristão, mas com forte viés socialdemocrata e até condimentos socializantes como a noção de cogestão na empresa com núcleos dirigentes de patrões e empregados, lembro por exemplo que o esforço massivo de alfabetização adotava o método Paulo Freire, o que lhe assegurava um tom de mudança estrutural na cultura do povo. E justamente proposições como essa se tornariam inviáveis com a implantação do regime militar.
No poder
Demagogos sempre tentaram sugerir, desde Getúlio Vargas especialmente, que o trabalhador estivesse já e agora no poder. É evidente que hoje com a ocupação do aparato estatal essa impressão se torna mais viva pela força da participação da classe obreira no ''racha'' de ministérios, orgãos delegados e até nas modernas agências reguladoras. É incrível que uma das ameaças da direita no pré-64 era a de que Jango (o presidente Goulart) montava no país o que chamavam de ''república sindicalista'' numa sugestão de que se tratava de um processo de comunização em andamento. A presença da força sindical, mais a obreira, embora também a patronal (vide o namoro aberto de seus dirigentes por Lula, o que era inimaginável quando tentava a presidência sem sucesso diante de Collor e posteriormente de Fernando Henrique), favorecida por um ambiente bom da economia, dá essa sensação de equilíbrio entre forças sociais tidas como antagônicas. Nunca se teve uma tonalidade sindical tão forte no governo como hoje, razão pela qual a churrascada e o desfile de brindes operam em consonância com o momento, que é de uma euforia fantasiosa pelos aspectos ainda artificiosos da conjuntura com sinais de desaceleração e de retomada da inflação.
Manifesto
Se o Manifesto Comunista de Marks e Engels tentou colocar como solução o levante do proletariado teve também uma visão geopolítica do momento, inclusive detectando sinais evidentes, aquele tempo, de uma globalização expressa no desvanescimento dos estados nacionais. No documento há um ponto curioso quando os autores se referem à mediocridade da vida rural com o que não se acena ao setor um protagonismo revolucionário. A acumulação do capital era um dos sinais que Marx tinha como postura revolucionária da burguesia.
Regionalmente um dos melhores momentos da ação do trabalho está justamente na contribuição já referida do padre Lebret que permeia a nossa história.





