Aquecimento preliminar
Se em todos os estados do País houver repercussão equivalente a ocorrida por aqui com as abordagens de Carlinhos Cachoeira junto aos governos ontem com o de Requião e o de agora com Beto Richa teremos um clima psicossocial denso e capaz de propiciar a perda de controles dos atores. Quem viajou anteontem e ontem pelas redes sociais viu-se diante de um radicalismo e de uma exasperação incomuns em nossa história, marcada até por lamentável passividade.
Mas é justamente a hipótese de uma rede capilar do jogo que vá bem além do centro-oeste e mergulhe por outras áreas do território nacional que de repente se transforme numa cruzada em favor da liberação da batotagem como forma de impedir que prospere na clandestinidade e acabe influindo em licitações e em empreiteiras. O jogo do bicho, que sempre apareceu em posição discreta e até meio romântica como financiador de candidatos, hoje em sua expressão massiva e nas suas vinculações com o bingo e as máquinas eletrônicas e os cassinos e provavelmente com o crime organizado e o tráfico de drogas, como se percebe nos morros do Rio de Janeiro e na periferia paulista, deixou a menoridade que derivava de componente da cultura brasileira e da proclamada honestidade dos seus operadores.

Expectativas fortes
Impossível, para usar a linguagem do jogo, que todos blefem no pôquer ao mesmo tempo e também é inviável que todas as forças políticas ganhem com a CPI, na qual o ex-presidente Lula aposta como uma perspectiva forte de anular tudo o que se apurou no mensalão. É evidente que o governo se valerá do peso da maioria para blindar as suas ações no monitoramento da oposição em seus pedidos, dos mais singelos até aqueles que possam liquidar a parada.
Não poderá, no entanto, e isso porque o governo não conseguiu o proclamado controle da mídia, impedir que jornais e emissoras de rádio e televisão continuem divulgando a sordidez do avanço tentacular da corrupção no país. E é justamente da atuação sinérgica do parlamento e da mídia, como decorrência da sociedade de opinião pública que estamos eregindo, que se espera um esforço para repetir e não elidir um clima como o da apuração do mensalão.

Recuos e avanços
No Brasil o maior impacto contra o jogo foi o fechamento dos cassinos, uma questão reivindicada por dona Carmela, esposa do presidente Dutra, nos anos quarenta, século passado, depois da redemocratização do país. De lá para cá tivemos recuos e avanços na questão dos cassinos, mas sem afetar os chamados jogos de azar, esses entregues à clandestinidade falsa porque toleradas e quase institucionalizadas. No incidente entre Carlinhos Cachoeira e o homem forte de Zé Dirceu, Valdmiro Diniz, havia uma ofensiva para liberar tudo, dos bingos às máquinas eletrônicas. Inclusive na passagem de Rafael Greca no ministério de Fernando Henrique Cardoso houve um esforço dos bingueiros pela legalização ou tolerância.
A questão do jogo divide o país como a do aborto, da pena de morte, algo para ser decidido em clima de referendo. A maneira como se o tolera cria capos da marginalidade que acabam se escorando em políticos. Como na liberação das drogas, tese de tanta gente bem intencionada, persistem os riscos.

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