Do bucólico ao terror

Para os moradores antigos da cidade, Uberaba era uma área bucólica até uns trinta anos e que sediava uma das mais importantes bacias leiteiras da Capital. A urbanização forçada, inclusive com invasões, mudou-lhe de forma radical as características. Aliás, não faz muito tempo que, em pleno Centro Cívico, havia uma casa que atendia fregueses de uma vaca leiteira.

Normalmente o caldo de cultura criado pelas invasões, em função da precariedade do local, favorece justamente a presença do narcotráfico, que a rigor parasita esse tipo de comunidade. O pior é que políticos sempre se renderam a esse jogo das ocupações tentando dar-lhe dimensão ideológica e de esquerda.

Exemplar foi a invasão de um condomínio da classe média, estimulada pelo governo Requião, que deu ordens expressas à Polícia Militar para que se omitisse. Essas manifestações, selvagens, primitivas, se davam em cima das celebrações da Independência como se isso lhes conferisse dimensão cívica.

Uberaba, com as invasões, acabou, como se dá com todo bolsão de pobreza, refém do crime organizado e erigido na condição de recordistas de violência, aliás um dos fatores que ajudou a lançar Curitiba no ranking mundial nesse aspecto tão negativo.

Ação social

Em ocasiões anteriores, como a do cerco da Vila Pinto, o governo anunciou que desencadearia, junto com a presença da polícia, ações sociais que se deram em escala muito reduzida e não correspondentes à promessa feita. Repete-se agora com a ''ocupação'' provisória de Uberaba o mesmo tipo de doutrina e declarada disposição de agir comunitário junto a escolas, associações de moradores para um esforço interativo com a mediação de outros órgãos públicos.

Esse quadro contrasta com a euforia das boas notícias de um propalado aumento de 84% na chamada classe A. Esse contingente (em termos de renda familiar seria o equivalente a R$ 10 mil) representaria hoje um terço da população, segundo apuração da Fundação Getúlio Vargas. Nessa radiografia a classe B cresceu 42,2% de 2003 a 2009 e a C deu uma pequena subida de 8%. Outras transformações: a classe D diminuiu 46,9% e a E 65,3%.

As boas condições de Curitiba e de suas instituições públicas e privadas foram extremamente favorecidas pelo ciclo virtuoso da economia nacional de FHC para Lula-Dilma. Mas entre 1996 e 2003 houve uma subida da pobreza de 4,04% para 10,05% e que depois caiu para 3,64% em 2009. A pobreza teve uma queda acumulada de 53,4% desde 2004.

Precisávamos operar com mais dados sociais no enfrentamento dos focos de violência, pois se a segurança é parte do social não se deve esperar que apenas medidas policiais, sabidamente necessárias, resolvam os problemas. O incrível é que Curitiba fez 25 anos em cinco, alcançando a meta do milênio da ONU de reduzir a pobreza à metade, mas ainda, infelizmente, sob o fulgor contraditório do ranking da violência em que nos destacamos mundialmente.

mockup